Cultura!

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OBJECTIVOS

Estes textos são uma mera justificação de gosto, dirigida em primeiro lugar aos amigos, e não são crítica de cinema, muito menos de teatro ou arte em geral... Nos últimos tempos são maioritariamente meros comentários que fiz, publicados principalmente no facebook ou no correio electrónico, sempre a pensar em primeiro lugar nos amigos que eventualmente os leiam.
Gostaria muito de re-escrever os textos, aprofundando as opiniões, mas o tempo vai-me faltando...
As minhas estrelas (de 1 a 5), quando as houver, apenas representam o meu gosto em relação à obra em causa, e nunca uma apreciação global da sua qualidade, para a qual não me sinto com competência, além da subjectividade inerente. Gostaria de ver tudo o que vale a pena, mas também não tenho tempo...

quarta-feira, 19 de julho de 2017

TREBLINKA, de Sérgio Tréfaut



TREBLINKA, de Sérgio Tréfaut

Ninguém deveria deixar de ver esta obra agora estreada em sala (Finalmente!!! Mas porquê só agora e em tempo de férias?!), já multipremiada, em Portugal (no Festival Indie 2016) e no estrangeiro.

Um documento importante sobre o nazifascismo, os seus campos de extermínio e o assassinato de milhões de pessoas, através dos relatos de alguns dos seus poucos sobreviventes.
Um dos testemunhos é de Marceline Loridan-Ivens, cineasta e escritora, companheira de Joris Ivens, famoso cineasta, antifascista e acompanhante empenhado de algumas das revoluções socialistas do Século XX. Curiosamente é lhe atribuída nesta obra uma frase que é a mais polémica do filme uma vez que, fora do contexto e admitindo que terá sido bem traduzida, poderá prestar-se a grandes equívocos: refere a ideologia e a religião, como se fossem males.

Ao contrário, penso, o homem como o animal mais inteligente que conhecemos tem no entanto na Ideologia o melhor (ou o pior) de si, porque as ideologias podem ser a favor do Homem ou contra ele. Mas sem elas, as que defendem o progresso e a justiça, o Homem não teria futuro.
Para nós, portugueses, que sobrevivemos à longa noite fascista, de Salazar e seus acólitos e com a Igreja Católica como apoiante, este filme tem um particular significado. É que essa gente que oprimiu o nosso País durante quase meio século, foi apoiante deste nazismo, fonte dos terríveis e quase inimagináveis horrores que a obra descreve pelo relato de alguns que lhes sobreviveram. 

Neste início do Século XXI é inquietante todavia verificar que as ideologias fascistas e nazis renasceram dos escombros e já surgem no poder no leste europeu, nomeadamente na Ucrânia! E até na própria França crescem, ainda que camufladas, principalmente nas frentes fascistas da marine le pen. E a extrema-direita chegou ao poder nos EUA (trump)... 

Os que amam a Paz e o Progresso para os Povos não podem dormir descansados. A luta vai ter que continuar. E o papel da Ideologia assume, como sempre, particular importância.



A nossa grande actriz Isabel Ruth, na imagem, dá corpo e rosto às sobreviventes do holocausto nazi em que pereceram milhões de pessoas, sistemáticamente eliminadas, por ódio racial (os judeus, principalmente), por perseguição política (os comunistas, em primeiro lugar)! 

Nos tempos que correm é para nós muito doloroso ver como alguns dos descendentes das muitas vítimas de ontem (as de ascendência judaica, como muitos de nós)  se tornam em algozes hoje (do mártir povo palestiniano, vítima da ocupação do seu país e de um novo genocídio cometido por sucessivos governos israelitas). E quanto se levantam vozes a protestar e a propor uma solução de Paz para a Palestina, são brutalmente eliminadas, como o Presidente Isaac Rabin, assassinado por um militante sionista de extrema direita, quando decorriam encontros para a Paz, entre representantes dos dois povos.


Na imagem algumas das obras que é indispensável conhecer, como as que falam do apoio do fascista salazar ao nazi hitler e seus aliados, com envio de matérias primas e géneros, roubadas ao povo português e de como foi o governo fascista português recompensado pelos nazis, com a entrega de parte do ouro retirado às vítimas assassinadas nos fornos crematórios nazis. TREBLINKA era um deles, na Polónia ocupada.


segunda-feira, 17 de julho de 2017

34º FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA



NOTAS DE UM MUITO MODESTO ESPECTADOR DE FESTIVAL

Depois de GOLEM - espectáculo audio-visual, com actores e músicos reais, muito interessante, pertinente nota de alarme sobre os efeitos das modernas tecnologias na vida dos humanos, a merecer comentário e reflexão, 



veio o VANGELO (Evangelho), de Pippo Delbono - muito pessoal, como de resto toda a sua obra, muito discutível por vezes, mas o que mais apreciamos nele e nos faz simpatizar com o seu autor, é o brado de revolta que ele transmite contra o papel negativo das religiões nas discriminações sociais, no racismo em particular, desde as cruzadas, passando pela inquisição (ver a cena quase final dos jurados ou juízes encapuçados, que também lembra o ku-klux-klan (que são religiosos, também)) e pelos nazi-fascismos (também católicos). 

Delbonno não se esqueceu de referir a questão actual e fundamental dos milhões de refugiados das guerras que o imperialismo tem desencadeado já no século XXI, milhões de seres humanos que fogem dos seus países que foram e estão a ser atacados, invadidos e fortemente destruídos pelas forças imperialistas da NATO e da UE, e que os países das forças invasoras desprezam e não querem receber, expulsando-os ou deixando-os perecer. Sempre com políticos religiosos, em geral católicos - marine le pen, trump, etc, à frente dos mais radicais contra o apoio aos refugiados.



Mas HEDDA GABLER, de Ibsen, encenado pela actriz e encenadora norueguesa, Juni Dahr, espectáculo de honra vindo do ano passado, admiravelmente encenado e interpretado, continua bem no topo das preferências (minhas, obviamente).




E ainda no festival deste ano não esquecer, dentro das Artes de Palco, o magnífico "A PERNA ESQUERDA DE TCHAIKOVSKI", misto de dança e teatro. 




Mas ainda irei à procura de ver mais qualquer coisa que me interesse, que pode ser um espectáculo muito simples mas que contenha aquela às vezes indefinível magia que tanto nos faz gostar do teatro, mas que às vezes não é fácil de encontrar.


(Texto baseado em minha nota de facebook, mas tenciono escrever um pouco mais sobre GOLEM e VANGELO)

ADENDA sobre VANGELO, de Pippo Delbono

Em resposta a um comentário de um amigo:


"Agora julgo ter percebido melhor a tua opinião... posso rir? Mas já que me perguntas: para mim as religiões, ou melhor, a católica, é de facto acusada (neste Vangelo) de um sem número de crimes, o que os católicos não devem apreciar (mas não os cometeu?). Nisso estou de acordo com o autor. 
O que achei acima de tudo discutível é que Delbono nunca se aproximou de uma resposta progressista, que não é obviamente um Jesus Cristo Superstar, por muito que eu admire o homem bom e rebelde que julgo ter sido, como o descreveu aliás o Pier Paolo Pasolini (também citado por Pippo Delbono), num dos seus mais belos filmes, esse outro Vangelo mas segundo Mateus. 
Lamento também que no final ele tenha posto a figura da Mãe, num leito de hospital, no fim da vida portanto, parecendo-me a mim uma representação do Buda, religião que Delbono seguiu e julgo que continua, mas cujos representantes máximos (Dalai Lama) também deixam muito a desejar... Todavia pareceu-me a obra, com todas as suas limitações, e ambiguidade, um discurso sincero de alguém revoltado e até ferido com o comportamento das igrejas, nomeadamente a católica. Mas não será esta a mais culpada de todas? 
São quase comoventes os momentos em que leva, fraternalmente, os actores que lhe são muito caros e o têm acompanhado ao longo da carreira- Bobó e o que representa Cristo, num símbolo óbvio daqueles que a sociedade burguesa despreza e até quer destruir se puder (no fascismo). Por agora fico para aqui mas prometo escrever o texto, talvez no blogue para quem quiser ler... Abração

A PERNA ESQUERDA DE TCHAIKOVSKI, de Tiago Rodrigues para a CNB




A PERNA ESQUERDA DE TCHAIKOVSKI

Sabemos como as Artes de Palco são efémeras, embora haja o recurso, menor, da gravação. Mas quando acontecem maravilhas de representação que nos dão muito prazer ficam para sempre na memória. 

É o caso, deste duo, Barbara Hruskova, a bailarina e a actriz, brilhante nos dois papéis, e Mário Laginha, o músico excepcional e participante inesperado no pas-de-deux, Não esquecendo obviamente, o Tiago Rodrigues, autor do espectáculo. 

Não foi por acaso que a enorme plateia, em geral exigente (e já houve pateada este ano...) do TMJB se levantou, como se fosse impelida por molas, para aplaudir de pé. 

Quando lembrarmos a 34ª edição do Festival de Teatro de Almada, este será um dos momentos que virá imediatamente à memória, tal como esse outro momento mágico de grande teatro que é a Hedda Gabler, da Juni Dahr e seus companheiros. 





SANSHÔ DAYÚ (O Intendente Sancho), de Kenji Mizoguchi


Mais uma obra-prima absoluta de Kenji Mizoguchi, o grande cineasta japonês e do seu argumentista, Yoshikata Yoda. 

Embora a historia se passe no Japão medieval, foi realizada em 1954, fazendo pensar nos campos de concentração do nazi-fascismo, na Alemanha, e países ocupados, e no Japão. O intendente Sanshô, pela sua crueldade parece baseado nas sinistras figuras que dirigiram esses campos sem a mais pequena réstea de humanidade. Acabam no entanto por escapar com vida devido à ausência de ódio revanchista das suas vítimas. 

Comovente e admirável tem, como quase sempre nas obras do grande realizador nipónico, principalmente quando teve como colaborador Yoshikata Yoda, o povo sofredor e explorado como personagem principal.

Mostra o sofrimento de um povo sujeito à escravatura nas propriedades privadas das grandes casas senhoriais do Japão imperial. 

Sobre esta obra escreveu João Bénard da Costa, o antigo director da Cinemateca Portuguesa, e não obstante a sua condição de intelectual católico, embora nalguns aspectos progressista, talvez o mais belo texto que lhe conheço. 

Se puderem tentem ver (ou rever) esta obra extraordinária, também no aspecto puramente de linguagem, que Benard diz que nunca conseguiu ver, apesar de a ter visto muitas vezes, sem chorar. É de facto difícil porque comovente.

(texto baseado na minha nótula facebookiana)










RUA DE CANTIGAS



Aos Amigos do Intervalo Grupo de Teatro já não preciso de dizer nada porque eles já sabem como esta companhia sempre nos surpreende pela qualidade, sem nunca ceder ao gosto populista ou ao mau gosto.

Surpresa também pelos talentos revelados em alguns actores, que nunca pensámos que fossem capazes de cantar tão bem. É um enorme prazer ir do fantástico Kurt Weil / Bertold Brecht, passando pelos maravilhosos versos de Ary dos Santos (Os Putos) ou Viriato da Cruz (Namoro, com música de Rui Mingas) até ao actual Desfado (Ana Moura), para só citar alguns dos muitos momentos magníficos desta representação/actuação.

Aos outros, amigos do facebook: experimentem e vão ver que ficam Amigos para sempre, como nós!

(texto facebook)


terça-feira, 4 de julho de 2017

PATERSON, de JIM JARMUSCH



PATERSON, de Jim Jarmusch (nascido em 22-Jan-1953, Akron, Ohio)


É uma obra de uma simplicidade tocante, passada em Paterson, New Jersey, em que o personagem principal, também chamado Paterson (magnífica interpretação de Adam Driver (1983, San Diego, Califórnia), intérprete do cinema independente, em "Frances Ha" (2012) e "Enquanto Somos Jovens" (2014), obras de Noah Baumbach, de que gostámos muito) é um motorista de autocarro que gosta de poesia e ele próprio escreve. 

O filme fala do quotidiano de Paterson e da sua mulher, Laura (a extraordinária Golshifteh Farahani, actriz iraniana, nascida em 1983, Teerão), dos pequenos incidentes do dia a dia, que Paterson transforma em poesia, que escreve no seu diário, em todos os momentos vagos e Laura adora, e Jarmusch nos oferece, para ler e ouvir (excelente ideia!). 

Jarmusch fez do seu filme também uma obra poética, que nos fascina pela sua beleza. Mas é uma visão idílica, num país que o é muito pouco, assolado pela exploração, pela violência, pelo crime, pela corrupção e por um povo que não deixam ser culto, que ignora a poesia e nunca ouviu falar em Allen Ginsberg (1926-1977) e muito menos em William Carlos Williams (1883-1963). Paterson não tem nem quer ter telemóvel, embora ironicamente acabe por aceitar um de uma jovem passageira para avisar a central que o autocarro que conduzia avariou, o que mostra quão difícil é recusar a utilização da informática que nos envolve nesta sociedade dita civilizada...

E há um bulldog, Marvin (Nellie), terrivelmente ciumento, que vai originar um dos momentos dramáticos da obra (que não vou contar), mas que nos faz sorrir um pouco amargamente, a quem aliás Jarmusch dedicará também a obra porque o cão actor faleceu inesperadamente durante o Festival de Cannes de 2016, onde a obra foi exibida, sem grande sucesso de critica mas sim de público. Marvin ganharia aliás o prémio do Festival, que alguns críticos acham ridículo, dedicado ao papel canino mais simpático (não sei quem vota...)

E mais uma série de personagens que Paterson vai conhecendo, incluindo as do bar por onde passa todas as noites, durante o passeio, obrigatório, com Marvin, o pacífico bulldog. E também um japonês, amante da poesia, que fechará o filme, com uma prenda simbólica a Paterson.

Recomendo a visão deste filme a todos os que amam a Poesia e aos amigos poetas facebookianos! Eu gostei!

(publicado no facebook em 3-Jul-2017)




sexta-feira, 2 de junho de 2017

O JOVEM KARL MARX, de RAOUL PECK



PRIMEIRA NOTA

Hoje, com todo este barulho, um tanto ou quanto acéfalo, de Fátima e de Futebol, e de buzinas a apitar, estou sem cabeça para escrever alguma coisa. 
Assim que puder fá-lo-ei a propósito do filme, O JOVEM KARL MARX, do cineasta nascido em Port-au-Prince no Haiti, Raoul Peck (ver foto), já autor de um famoso filme sobre LUMUMBA, o grande revolucionário africano, assassinado pelo colonialismo. De novo com a participação de Paul Bonitzer (ver foto), na escrita do argumento.

Gostei e recomendo aos Amig@s a sua visão. 

Destacando-se de tanta obra medíocre em exibição na nossa cidade e que a crítica do nosso descontentamento inacreditavelmente sobrevaloriza (não vou citar para não causar polémica), eis um filme inteligente na sua aparente simplicidade, que nos encanta, e do qual saímos a pensar que gostaríamos de rever na primeira oportunidade.

A obra, fala da juventude de Karl Marx, da sua companheira Jenny Von Westphalen, do seu grande amigo Frederich Engels e da sua companheira, a jovem operária irlandesa, Mary Burns, aliás magnificamente interpretados pelas actrizes e actores do filme. 

O filme termina com a primeira edição do MANIFESTO DO PARTIDO COMUNISTA, em 1848, escrito pelos dois Revolucionários, com a colaboração das suas companheiras.

A minha opinião cinéfila é que os amig@s não percam. E julgo que o retrato dado na obra, da figura de um dos filósofos mais importantes de sempre, KARL MARX, está tratada sem preconceitos anticomunistas e reaccionários, mostrando várias facetas do genial pensador e revolucionário, cujas obras continuam de uma enorme actualidade apesar de tudo o que aconteceu depois, neste mais de um século e meio de História.

SEGUNDA NOTA - AINDA A PROPÓSITO DE "O JOVEM KARL MARX", UM BELÍSSIMO FILME DE RAOUL PECK

Peço-vos, vejam este modesto texto apenas como um comentário despretensioso de um ser humano interessado nas melhorias, reais e efectivas, do mundo em que vive. Alguns momentos da obra que me impressionaram, recorrendo apenas à memória cinéfila e sem ordem cronológica:

Os diálogos entre os Engels, pai capitalista e filho revolucionário. Incluindo as magníficas cenas na fábrica, perante as trabalhadoras, com a perseguição às mais lutadoras. 

O diálogo de Karl Marx e Engels, num clube onde as mulheres não são admitidas, com um grande capitalista, amigo do pai de Engels, no qual as posições políticas de todos ficam muito bem definidas. 

A primeira reunião na Liga dos Justos, com os dirigentes operários, ainda influenciados pelas ideias anarquistas. 

As discussões políticas com os dirigentes operários, influenciados por idealistas, reformistas e populistas, onde Marx e Engels contrapõem a necessidade de um conhecimento e uma teoria política, indispensável para atacar e derrotar o poder burguês. Não basta gritar "Venceremos!", nem dispor apenas de um grupo mais ou menos reduzido de revolucionários, por muito corajoso que seja, embora ele seja indispensável. 

O congresso da Liga, do qual sairá a Liga dos Comunistas, com a retirada dos seguidores e apoiantes de Proudhon, aliás julgo que todos magnificamente caracterizados, até fisicamente, com a sua arrogância tipicamente burguesa (o que é que mudou nas ideias e na postura nos tempos actuais? A terceira via não era, nem nunca será possível numa luta entre as duas classes sociais antagónicas). 

A elaboração do Manifesto, por Marx e Engels, com a admirável, sempre atenta, colaboração das companheiras, Jenny e Mary. 

O filme termina com as cenas da impressão do Manifesto mas até ao fim da sua vida Marx concluiria, entre muitos outros escritos, uma das obras fundamentais da filosofia universal que é "O Capital". Hoje, cerca de 170 anos depois da publicação do Manifesto que é que mudou, apesar da sua flagrante actualidade em termos gerais? Acima de tudo relembrar que houve um enorme enriquecimento da teoria revolucionária pela experiência concreta dos que fizeram as Revoluções Socialistas que depois aconteceram, mesmo que algumas não vitoriosas. Em primeiro a Revolução de Outubro, em 1917 na Rússia, que deu origem ao primeiro estado na história da Humanidade com os trabalhadores no poder e que haveria de durar cerca de 7 décadas, com enormes progressos sociais e científicos. Donde surgiram os textos fundamentais da teoria política, o marxismo-leninismo, de Lenine e de mais alguns revolucionários que se lhe seguiram. E também das revoluções no Oriente, vitoriosas, nomeadamente e até hoje na China, Coreia e Vietname. E no Leste Europeu, dando origem a vários regimes socialistas. E na América Latina (principalmente no México e na ainda vitoriosa Cuba). E em África, com muitos avanços e recuos e a grande vitória sobre o apartheid na África do Sul. Nas lutas anti-fascistas, de onde se destaca Portugal e a Revolução de Abril, com os grandes textos de Álvaro Cunhal. Tudo experiências muito diversas, mas tendo sempre um objectivo comum, chegar ao Socialismo. E em muitas outras partes do mundo, sempre em luta por mais liberdade e democracia para os povos.

Não esquecer também, que houve, perante a agressividade das políticas da burguesia em situações de crises graves do capitalismo, a necessidade da formação de Frentes Populares (nomeadamente em França, Espanha, Chile), que nunca conseguiram todavia passar à etapa seguinte, devido aos violentos ataques das forças burguesas, sob a forma de fascismo. 

Numa conclusão final, uma sugestão: não percam esta belíssima obra, com muitos outros momentos que ficam na nossa memória cinéfila, como a fuga à polícia, em França, dos dois amigos revolucionários, alvo de perseguições constantes, acabando Marx, Jenny, a filha ainda quase um bebé, por serem expulsos de território francês em apenas 24 horas, sem possibilidade de apelo.

Sobre o realizador, Raoul Peck, haitiano de nascimento, em Port-au-Prince, em 1953, salientemos que realizou além deste filme mais dois notáveis documentários, um, "Lumumba", que ainda não vimos e julgamos nunca ter sido distribuído em Portugal, sobre o revolucionário congolês, Patrice Lumumba (1925-1961), assassinado pelos colonialistas, e outro, "Eu Não Sou o Teu Negro", sobre a luta anti-racista e pelos direitos humanos nos EUA, e sobre os assassínios de Medgar Evers, Martin Luther King e Malcom X, baseado num texto do escritor James Baldwin, filme que vimos há dias nos cinemas da nossa cidade e é também muito bom. Saliente-se ainda que Peck contou com a colaboração Pascal Bonitzer (Paris, 1-Fev-1946), realizador e argumentista francês que havia já participado em obras de qualidade de Jacques Rivette e André Téchinè.

NÃO PERCAM "O JOVEM KARL MARX" ! Antes que os péssimos distribuidores que temos o retirem de exibição, não vá ele ainda ser visto por grandes massas de espectadores. O espectro continua assustar os exploradores e os reaccionários...






EU NÃO SOU O TEU NEGRO (I AM NOT YOUR NEGRO), de RAOUL PECK



Só uma pequeníssima nota do muito que haveria a dizer sobre mais uma obra notável do realizador haitiano, RAOUL PECK (Port-au-Prince, 1953), um homem de cultura, autor de "LUMUMBA" e de "O JOVEM KARL MARX", este último filme da sessão de gala no Festival de Berlim e que víramos com muito interesse há dias e do facto demos notícia aos amigos. 

Esta nova obra, "I AM NOT YOUR NEGRO" baseia-se nas notas deixadas pelo escritor e activista dos direitos cívicos nos EUA, JAMES BALDWIN (1924-1987), que pretendia escrever uma obra sobre a luta anti-racista no seu país, homenageando simultâneamente três grandes dirigentes negros assassinados, Medgar Evers, Malcom X e Martin Luther King, que foram seus amigos e companheiros de luta. 

Repositório tremendo do que tem sido a luta pelos direitos cívicos nos EUA e continua muito actual, dado o retrocesso civilizacional naquele país e no mundo capitalista, responsável pelo crescimento da extrema-direita, do racismo e da xenofobia, como também na actual união europeia. 

Medgar Evers, foi o primeiro a ser assassinado, como sempre por um activista de direita, membro da Ku Klux Klan, Byron De Le Beckwith, que no entanto escapou à justiça durante 30 anos, só vindo a ser julgado e condenado pelo crime em 1994 (!!!). 

Impressionante o relatório do FBI sobre James Baldwin, essa tenebrosa instituição então dirigida pelo famoso, pelas piores razões, Edgar G. Hoover. 

Na actualidade dos textos e discursos de Baldwin (alguns na voz de Samuel L.Jackson) refira-se a sua afirmação de que tudo está nas mãos do povo norte-americano. Sabemos o que isso significa de necessidade de luta organizada e de esclarecimento de uma população que o é muito pouco. 

Curiosidade pelo surgimento nas imagens de actores famosos, apoiantes das causas cívicas, entre os quais, um dos que traiu ideais e companheiros, Charlton Heston, aliás mau actor, que viria a mudar de barricada e a tornar-se presidente da NRA (National Riffle Association), activista contra o aborto, apoiante de Reagan e dos Bush. 

Haveria muito a acrescentar sobre esta magnífica obra de Raoul Peck, mas não havendo aqui e agora nem tempo nem espaço fica a fortíssima sugestão aos amigos facebookianos para não a perderem. 
Vi no Cinema Ideal, ao Camões, em Lisboa. 

Às imagens que juntei adicionei a do jornalista Mumia Abu Jamal, que embora não seja citado na obra, é uma das vítimas da perseguição racista nos EUA, continuando preso.








A RUA DA VERGONHA, de KENJI MZOGUCHI



A RUA DA VERGONHA (Alasen Chitai) (1956), de KENJI MOZOGUCHI

Um dos filmes mais duros do grande cineasta nipónico, contra o capitalismo, sistema que assentando na mais crua exploração do homem pelo homem, ocasiona que seres humanos acabem por vender até o próprio o corpo para sobreviver.

Os comerciantes do sexo, os proxenetas e afins, justificam-se dizendo que no fim de contas prestam assistência social, não interessa se daí tiram chorudos lucros, como Mizoguchi repete várias vezes. Mas não é isso na prática que fazem os que ajudam a manter a pobreza para depois dela tirarem proveitos, em negócios vários de assistência social?

Não sei se o negócio da prostituição continua legal no Japão, como o era no nosso País, durante o fascismo dos tempos do salazar e cerejeira (o tal que era cardeal patriarca) e que depois disso a política de direita já tentou reactivar no nosso País. 
Mizoguchi realizou esta obra-prima quando, no pós-guerra, o parlamento japonês, tornado mais democrático, e julgo que já depois de terminada ocupação norte-americana do país, quis aprovar a ilegalização da prostituição, o que provocou de imediato um coro de protestos, dos utilizadores das casas, muitos da alta burguesia, e dos seus proprietários.
"Rua da Vergonha" é um retrato admirável de várias mulheres que, quase todas, por impossibilidade de sobrevivência sua e da sua família, se tornam gueixas, escravas dos donos dos bordéis.

Entre as várias e impressionantes cenas do filme, lembrar a do filho criado com sangue, suor e lágrimas pela gueixa e que depois repudia a mãe, ou a do pai que utiliza bordéis mas depois, perante o caso conhecido da própria filha, que a sociedade condena mas utiliza, procura convence-la a abandonar o bordel ou, o mais trágico de todos, na cena final da obra, da iniciação de uma mulher ainda quase criança, utilizada para substituir alguém que morreu, por ter sido assassinada por um cliente transtornado.

"A Rua da Vergonha" é outra das grandes obras deste mestre da Sétima Arte. Tê-la realizado nos anos 50, num Japão imperial, na ascensão do capitalismo do pós-guerra, revela coragem.





A SENHORA OYU, de KENJI MIZOGUCHI



A SENHORA OYU (Yöu-Sama)

Aparentemente é apenas um muito belo e puro melodrama, se não repararmos nas implicações sociais, sociológicas, de um argumento, sempre brilhante, de Yoda Yoshikata (Japão, 1951).

Mais uma obra-prima deste realizador, do seu argumentista, não esquecendo os seus actores e actrizes, que são admiráveis, apesar das dificuldades em trabalhar com Kenji Mizoguchi, que pouco explicava do que queria, segundo Paulo Rocha, que também realizou obras no Japão, anos mais tarde (o belíssimo A Ilha dos Amores, sobre Wenceslau de Morais).

A propósito do epitáfio no túmulo do cineasta - "Aqui jaz o maior cineasta do mundo" - o antigo director da Cinemateca Portuguesa, João Bénard da Costa, apesar da sua filiação católica, escreveu:

"Quem não conhece os filmes analisados neste volume (catálogo da Cinemateca que lhe foi dedicado) - e que são pouco mais que um terço de tudo quanto fez - achará que o (autor do epitáfio) exagerou.

John Ford, Fritz Lang, Carl Th. Dreyer, Jean Renoir, entre os cineastas que, como Mizoguchi, começaram no cinema mudo e continuaram, sem solução de continuidade no sonoro, são os únicos que vejo de quem se pode dizer que foram tão grandes como Mizoguchi. De maiores, não sei de nenhum."

(mas, em minha opinião, provavelmente Bénard esqueceu-se, pelo menos, de Serguei Eisenstein, que é outro grande nome da arte cinematográfica universal)

Mas mais ou menos o mesmo, acerca da grandeza de Mizoguchi, foi dito por outros grandes cineastas, como Orson Welles ou Jean-Luc Godard.

Pessoalmente considero o famoso trio do cinema japonês e universal - Kurosawa, Ozu e Mizoguchi - como estando no relativamente reduzido número dos meus cineastas preferidos, quando penso em termos da globalidade das suas obras. Mas quando tenho que escolher as obras-primas que mais me impressionaram então Mizoguchi surge sempre entre os primeiros.

"A Senhora Oyu" é também outra história de amor impossível, de que Mizoguchi tantas vezes fala, embora por diferentes razões.

Nesta obra, que fala de uma sociedade em que os casamentos são acordados no seio das famílias mais poderosas, e não pelos amantes, é uma atracção súbita que conduz à paixão e sobreleva tudo o mais, que irá provocar o sacrifício do amor das duas irmãs. Trágico e belo, apesar de tudo!

E sempre com uma delicadeza de tratamento dos grandes sentimentos humanos que a nós, espectadores ocidentais do cinema hollywoodiano e seus seguidores, ainda nos surpreende, por estarmos habituados a um tratamento em geral demasiado primário e às vezes até grosseiro. 



E não é pela questão de mostrar ou não corpos nus ou cenas de amor físico, mas por questões muito mais profundas. A título de exemplo, muito longe do estilo de Mizoguchi estará "Lady Chatterley" (2007), baseado no romance de D.H.Lawrence (1928), realizado pela cineasta francesa Pascale Ferran, e no entanto, quer no aspecto estético quer no seu todo, é outra obra que consideramos admirável. Também porque, como em Mizoguchi, existe o mesmo respeito pelo Homem e pelos seus sentimentos. Mas sei que esta comparação será polémica! Paciência... É a Sétima Arte, como a vejo!





A IMPERATRIZ YANG KWEI-FEI, de KENJI MIZOGUCHI

A IMPERATRIZ YANG KWEI FEI (Yokihi) (1955), o primeiro filme a cores do grande mestre japonês e logo no dizer da crítica, "essas fantásticas cores que fazem desta obra um dos mais belos filmes a cores da história do cinema" (Bénard da Costa).

Do cineasta disse Jean-Luc Godard que era "o melhor dos realizadores japoneses. Ou, simplesmente, um dos melhores realizadores do mundo."

A obra é, uma vez mais em Mizoguchi, uma história de amor impossível, em que o elo mais fraco é sempre a mulher. Passada na China feudal do século VIII ou IX, entre lutas entre senhores da guerra, em que o povo serve sempre para carne para canhão, descreve as lutas pelo poder na corte imperial, com corrupção e intrigas. 
Mizoguchi, culto e admirador confesso da história do grande vizinho, adapta uma história chinesa, com a colaboração uma vez mais do seu grande argumentista, Yota Yoshikata, um homem culto e progressista. 

A assistência, numerosa para uma sessão deste tipo, num início de tarde de um dia de semana, assistiu impressionada, comoveu-se e saíu em silêncio, rendida à arte de Mizoguchi.

Kwei Fei é sacrificada aos interesses em luta, ou sacrifica-se para salvar o amante. Mas não é esquecida por ele. O Amor em tempos conturbados.




quinta-feira, 4 de maio de 2017

DOM QUIXOTE, de Miguel de Cervantes, encenação de Armando Caldas




DOM QUIXOTE, encenação de Armando Caldas, Intervalo Grupo de Teatro

Foi em 2005 que o Intervalo Grupo de Teatro estreou a sua adaptação do Dom Quixote, de Miguel de Cervantes (1547-1616), cuja primeira parte da famosa obra foi publicada em 1605 e a segunda apenas em 1616. 

Este espectáculo foi então um grande sucesso de público e de crítica estando cerca de um ano em cena (ler magníficos textos, nomeadamente de Maria Helena Serôdio, Maria Elvira Seixo, Francisco Faraldo e Correia da Fonseca, entre outros, na folha de sessão e no respectivo programa, este sempre com muito que ler).

É essa encenação de Armando Caldas, interpretada por Miguel Almeida (Dom Quixote) e Helder Anacleto (Sancho Pança) nos principais papéis, que agora é reposta.

Gostaria muito de conseguir transmitir a quem me lê quanto gostei desta adaptação do Intervalo, que se baseou principalmente no projecto de Orson Welles (1915-1985), que durou uma vida inteira e que ele não chegou infelizmente a concluir, mas de que existem documentos e testemunhos e na peça do nosso António José da Silva (O Judeu) (1705-1739), um dos grandes nomes do nosso teatro, que foi queimado com apenas 34 anos (!) nas fogueiras da santa inquisição.

Gostaria de citar ainda, do cinema, o famoso filme "Don Kikhot" (1957) de um cineasta soviético, Grigori Kozintsev (1905-1973), que nos anos 60 vimos nos cineclubes, onde era exibido, discutido e admirado.

E, obviamente, a obra literária, obra-prima, de que agora ando a ler a tradução (1959) do grande Aquilino Ribeiro (1885-1963), ela própria motivo de grande prazer. De Cervantes diz Aquilino: "o simpático e liberal senhor Miguel Cervantes, tão perto de nós escritores, proletário como nós, plebeu, embora andassem afanosamente à cata dos seus avoengos fidalgos, inconformista como o somos na maioria! Tão igual a Camões em tudo, no génio, no infortúnio, nos aleijões da guerra, na invalidez, que parecem dois filhos gémeos da macaca. Além disso, cheio de ânsia, com os olhos no ideal, louco, fantasiador, desesperado, perigoso, batido por todas as contradições de uma inteligência proteica."

O que Armando Caldas e os magníficos actores do Intervalo nos conseguiram trazer para o palco foi todo um humanismo e a revolta contra as injustiças de que é vítima a maioria dos seres humanos, à mão da minoria de poderosos, por força do dinheiro, da exploração, da opressão. 

É o que Cervantes nos diz através do seu Dom Quixote, num retrato simultaneamente cómico e trágico, de luta permanente, da nossa condição humana, com todas as suas fraquezas e grandezas, mas eternamente revoltada contra o que não é justo. Mesmo que às vezes os lobos nos surjam disfarçados com pele de cordeiro ou que pareçam ao longe meros e inocentes moinhos de vento.

"O sonho comanda a vida", é bem verdade, como afirmou o Poeta, e pouco a pouco tem vindo muitas vezes a tornar-se realidade, ainda que depois surjam novos retrocessos, porque a luta entre os que nada têm, ou têm muito pouco, e os que têm tudo, ou quase tudo, não cessará jamais enquanto a justiça e a igualdade não vencerem. 

O Dom Quixote, de Cervantes, acaba vencido mas a luta dos que sonham com um mundo melhor continuará sempre. Mesmo que alguns de entre nós sejam como Sancho, bons mas crédulos, assustadiços e medrosos, querendo refugiar-se na ideia de que nada pode ser mudado pelos seres humanos, e por isso lhes resta serem interesseiros, só lutando quando nada mais resta a fazer para salvar a pele.

Há nesta dramatização uma dúzia de cenas cheias de força e simbolismo. Entre elas está a que narra o encontro de Dom Quixote com os senhores poderosos, as suas damas e os hipócritas conselheiros e confessores, os representantes religiosos. Desprezam, troçam, desconsideram o cavaleiro andante, Dom Quixote, e o seu escudeiro, Sancho, com a arrogância dos convencidos da sua importância e impunidade. Quem não passou já por isso?

Um dia, porém, "chegará o dia de todas as surpresas".







OS AMANTES CRUCIFICADOS e OS CONTOS DA LUA VAGA, de KENJI MIZOGUCHI

OS AMANTES CRUCIFICADOS (Chikamatsu Monogatari) (1954)


Um dos mais belos filmes do grande mestre nipónico, um dos maiores realizadores da Sétima Arte. 

Como o Amor é perseguido, condenado (mas só se os poderosos não estiverem envolvidos e, mesmo às vezes nesse caso, se não forem homens), nas sociedades onde os mais ricos e as religiões dominam. 
Num Japão feudal, que é olhado sem nenhuma complacência. Com imagens das mais belas que o cinema nos tem dado. 
Tenho pena que os textos publicados no catálogo do ciclo sobre Mizoguchi sejam algo parciais, ignorando a crítica social que existe na obra, e muito forte, mostrando a corrupção e os jogos de poder nessa época, no Japão ou em qualquer outra parte do mundo.







CONTOS DA LUA VAGA (Ugetsu Monogatari) (1953)

De Mizoguchi disse Orson Welles, outro génio, que qualquer elogio que se lhe faça nunca será excessivo. É o que sentimos ao rever estas obras-primas da Sétima Arte.
Contos da Lua Vaga, o mais conhecido dos filmes de Mizoguchi, é de uma beleza insuperável, realista e mágico, num Japão do século XVI. Mas esta magia, é preciso que se diga, tem muito a ver com o sonho, com o desejo de melhores dias, algo muito humano que o mais terra a terra dos seres humanos não desdenha.
E nunca esquecer o argumentista de Mizoguchi, ao longo de grande parte da sua obra, Yoshikata Yoda, um homem progressista, a quem o mestre nipónico muito deve.







 Kenki Mizoguchi

Yoshikata Yoda