Cultura!

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OBJECTIVOS

Estes textos são uma mera justificação de gosto, dirigida em primeiro lugar aos amigos, e não são crítica de cinema, muito menos de teatro ou arte em geral... Nos últimos tempos são maioritariamente meros comentários que fiz, publicados principalmente no facebook ou no correio electrónico, sempre a pensar em primeiro lugar nos amigos que eventualmente os leiam.
Gostaria muito de re-escrever os textos, aprofundando as opiniões, mas o tempo vai-me faltando...
As minhas estrelas (de 1 a 5), quando as houver, apenas representam o meu gosto em relação à obra em causa, e nunca uma apreciação global da sua qualidade, para a qual não me sinto com competência, além da subjectividade inerente. Gostaria de ver tudo o que vale a pena, mas também não tenho tempo...

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

DETACHMENT (O Substituto), de Tony Kaye


Em dia de chuva persistente, resolvi ir ao cinema, na esperança de ver alguma coisa que me agradasse, tendo em conta que já tinha visto (suponho) tudo o que de muito bom estava em exibição e valesse a pena ("César Deve Morrer", "Bellamy", "Para Roma com Amor"), com excepção de dois filmes portugueses (modestos, a acreditar na crítica ... posso rir?), mas que para mim eram demasiado pesados para um dia tão lúgubre como o este, e que são "Aristides Sousa Mendes" e Operação Outono" (este sobre o assassinato, pela PIDE, do General Humberto Delgado), mas que irei obviamente ver, por muitas recomendações em sentido contrário que me "façam" os críticos dominantes...

E não é que fui surpreendido por uma obra notável!?  

"DETACHMENT" (O Substituto), realizado por um multifacetado artista londrino (1952), TONY KAYE, que depois verifiquei ser o autor de "AMERICAN HISTORY X" (América Proibida), sobre o racismo e os movimentos neo-nazis nos EUA e também autor de um, ainda mais famoso, documentário, que a distribuição que temos censurou, sobre a situação do Aborto nos EUA, "LAKE OF FIRE".


http://thefilmstage.com/news/tony-kaye-updates-pending-long-delayed-projects/

O DETACHMENT (O Substituto), tem como pano de fundo o deplorável estado da nação, os EUA, que atinge as camadas mais jovens, a maioria sem futuro nem esperança e de como a Escola lida com isso, levando ao desespero os professores mais atentos e conscientes.

Adrien Brody, o famoso actor de "O Pianista", de Roman Polanski, entre outras excelentes interpretações, é na obra de Tony Kaye o professor que não quer criar amarras, por razões pessoais, e se limita a ser um professor substituto, com contratos ocasionais. 
Obra sensível, que nos toca, em que Kaye é um verdadeiro autor, desdobrando-se entre a realização e a direcção da fotografia, que é magnífica. E entregou um dos principais papéis à filha Betty, excelente na jovem estudante Meredith.


http://www.ineedmyfix.com/2012/03/14/more-humpday-treats-adrien-brody-premieres-detachment-in-nyc/

Para não me prolongar agora mais, só como nota final: dizer que julgo tratar-se de uma daquelas jóias que vêm do cinema independente (como não sou crítico não sei se esta classificação de independência em relação à grande indústria estará correcta...) e lamentar que um filme como este, tão interessante e que faz pensar, ao fim de uma semana já não conste da lista dos 10 filmes recomendados (entre os quais estão obras de pouca qualidade) pelos críticos do quotidiano "Público". E esta? Ou será que convém fazê-lo esquecer, antes que alguém se lembre de o ir ver? (por acaso a sala onde fui tinha bastante gente e na minha fila estava um homem do Teatro que muito admiro, pela sua obra).

(publicado no facebook e no indeks/ cartaz de cinema)

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

BELLAMY, de Claude Chabrol


HOMENAGEM A CHABROL - MAIS PRAZER CINÉFILO: "BELLAMY"

Foi nos anos 60 que comecei  a ver as obras de Claude Chabrol (Paris, 24-Jun-1930 – 12-Set-2010), as que chegavam até nós. Creio que foi “À Double Tour” (Quem Matou Leda) (de 1959), o primeiro que vi, nessa longínqua época, numa sessão de um dos cineclubes de então - ABC, Imagem ou CCUL, embora, pela minha condição de estudante, fosse sócio do CCUL, numa dessas associações que nos ajudaram a ver Cinema e não só, nesses tempos plúmbeos e medíocres.
E a partir daí foi sempre com um redobrado prazer cinéfilo que segui a sua carreira.  É um dos autores de que não gostava de perder nova obra, à semelhança do que acontece com alguns outros cineastas e obviamente com alguns escritores. Mesmo que a não consideremos no conjunto do melhor do seu autor.
Não é no entanto, na minha opinião, o caso de “Bellamy”, que Chabrol dedicou a dois “Georges”: obviamente Brassens e Simenon, que também são para nós, não por acaso, duas referências.


http://images.search.conduit.com/ImagePreview/?q=marie%20bunel&ctid=CT3241941&searchsource=15&CUI=UN34371507074683905&start=0&pos=9

É que o filme é muito bom, embora no entanto se trate de uma obra um pouco à margem, em minha opinião, do conjunto da filmografia de Chabrol, ele que é muito justamente considerado um crítico, agudo e mordaz, da vida burguesa, mais da grande e média que da pequena burguesia. Digamos que aqui ele alarga a sua observação do comportamento humano, num retrato complexo, pela sua imbricada teia de relações, mas em que o humor não está ausente.
Teria ou não Chabrol ideia de que poderia ser o seu último filme, suponho que ninguém saberá. Mas não deixa de ser algo premonitório que o tema aborde a morte, ou o desejo dela, como motivo principal. Mas não deixo de concordar com os que detectam alguma influência neste filme, nas suas personagens, da escrita da grande escritora inglesa, do género policial, Ruth Rendell (que Chabrol adaptou com brilho  noutras obras, a partir de alguns dos seus romances).   É magnífico que na sua derradeira obra Chabrol, homenageie, embora discretamente, dois dos grandes autores do Policial, Simenon e Rendell, de cuja escrita gostava muito, tal como eu.


http://images.search.conduit.com/ImagePreview/?q=claude+chabrol&ctid=CT3241941&SearchSource=15&FollowOn=true&PageSource=ImagePreview&SSPV=&start=35&pos=1

De salientar ainda a cativante interpretação de Marie Bunel, como Madame Bellamy (Françoise), a mulher do Inspector, que fica na nossa memória cinéfila. Por outro lado Gérard Depardieu é excelente. O seu Bellamy tem de facto bastante a ver com Maigret, pelo menos como eu o imagino.
As alegações finais do jovem advogado de defesa, no julgamento do pretenso homicida que havia pedido auxílio a Bellamy, servindo-se dos versos de Brassens é uma ideia para mim original, porque não me lembro de outra igual.
E para terminar, suponho que quem viu reparou, nessa imagem de marca do grande cineasta francês, que nos acompanha desde o primeiro filme e que neste, embora seja um filme muito de interiores, não deixa de surgir para nosso encantamento. O desfilar da copa das árvores perante os nossos olhos, ou os dos infelizes ocupantes dos automóveis, carros que neste filme têm papel determinante, no início e final da obra...
Por tudo isto, é um prazer, cinéfilo em primeiro lugar.
E lamento muito por não poder ver mais nenhuma nova obra deste cineasta que tanto apreciávamos.

(publicado no Cartaz de Cinema / Público / Indeks)



sábado, 3 de novembro de 2012

CHIKAMATSU MONOGATARI (OS AMANTES CRUCIFICADOS), de KENJI MOZOGUCHI






Passou na Cinemateca uma obra-prima de Kenji Mizoguchi, o grande mestre japonês, que é "Os Amantes Crucificados" (de 1954), uma vez mais realizada com a colaboração do seu famoso argumentista Yoshikata Yoda, o qual conferiu quase sempre uma visão progressista às belíssimas obras em que colaborou, quer com Mizoguchi, quer com outros cineastas japoneses depois da morte de Mizoguchi, em 1956 (nascido em Tóquio em 1898). A ver quando puderem e voltar a ser exibido ou passar (o que é raro) na TV.







CISNE, de TERESA VILLAVERDE


SOBRE O CINEMA



«Lutar por este "cinema livre" nunca terá sido tão difícil, alerta Teresa Villaverde: "Na Europa, acontece cada vez mais a imposição do cinema narrativo. O autor escreve um roteiro que vai aos burocratas da TV, antes de nascer já foi ao médicos. Mas o cinema é mais que um fio narrativo. É tempo, silêncio, imagem, som, está mais próximo da poesia, ou devia." 

(Teresa Villaverde, entrevistada por Alexandra Lucas Coelho no Festival de Cinema do Rio de Janeiro, por ocasião da recente exibição de "CISNE") (lido no "Público", de 3-Out-2012)

CESAR DEVE MORIRE (CÉSAR DEVE MORRER) de PAOLO E VITTORIO TAVIANI


“CÉSAR DEVE MORRER”, de Paolo e Vittorio Taviani

Amig@s, recomendo muito a visão deste filme, a surgir em breve nos nossos ecrãs e que teve ante-estreia para o grande público, na Culturgest, dia 27-Out-2012, na sessão de encerramento do DOCLISBOA 2012, onde o pude ver. Houve amigos, que mo recomendaram, que o haviam já visto em sessão especial reservada aos críticos.

O filme trata de uma representação da famosa peça “Júlio César”, de William Shakesperare, num universo concentracionário, o de uma prisão romana de alta segurança, Rebibbia, em que os actores foram seleccionados entre os presos e grande parte das cenas são realidade, isto é, pertencem aos ensaios e à representação da peça, dentro da prisão, para um público que ali foi autorizado a assistir.
A obra parte de um paradoxo: a luta pela liberdade contra a tirania, é representada integralmente neste filme por homens que dela foram privados, mas por terem cometido crimes de grande gravidade, que os levam a cumprir elevadas penas que, nalguns casos, vão até à prisão perpétua. É óbvio que, no entanto, sentem como qualquer outro ser humano o pode sentir, nas condições mais diversas, a falta de liberdade.
Neste universo desumano, os homens perdem muito da sua dignidade, amputados além da liberdade, do amor, das suas mulheres, cuja presença no filme se sente embora quase invisível.
Entre muitos outros méritos, cinematográficos também, esta obra extraordinária dos Irmãos Taviani, faz-nos pensar desde logo na relatividade da liberdade, nos seus limites, no limite supremo que, em minha opinião, reside na necessidade de defesa da classe trabalhadora, exército de explorados e oprimidos, que uma vez libertos e chegados ao poder, através de grandes lutas e sacrifícios, dada a enorme diferença de meios entre exploradores e explorados, se vê obrigada a limitar a liberdade dos antigos senhores, sob pena de sabotagens e atentados que deitariam tudo a perder. E isso, obviamente, também é uma ditadura, para estes.
Um outro aspecto fundamental que a obra foca é o de homens duros e violentos, capazes de matar e serem associais (acusados de assassinatos, de tráfico de droga, de associação criminoso – Mafia e outras organizações, etc) terem aceite participar neste projecto e nele se empenhando com grande inteligência e sensibilidade. Recuperando a dignidade como seres humanos.
Por isso a representação da obra-prima da dramaturgia universal que é “Júlio César”, é nesta encenação por vezes emocionante, comovente mesmo. É a dignidade de seres humanos, que no seu passado foram capazes de comportamentos irresponsáveis, que ressurge perante os nossos olhos. 
Lembrei-me de uma das mais belas obras do revolucionário, político, homem das Artes, que foi Álvaro Cunhal, em “A Estrela de Seis Pontas”,  em que o escritor narra, através de várias estórias, a sua experiência de contacto durante o seu cativeiro nos cárceres fascistas por motivos políticos, com presos de delito comum, dando-nos admiráveis retratos desses homens vivendo em condições adversas, em geral muito por culpa própria, mas em que as fraquezas e grandezas do ser humano não deixam de coexistir.
Tudo isto a obra dos Irmãos Taviani mostra através de imagens que nos impressionam, com uma magnifica utilização da cor e do preto e branco. A cor, no início e fim da obra, nas imagens filmadas da representação, nomeadamente da batalha final da peça. O preto e branco, na vida na prisão, nos ensaios que às vezes se misturam com o quotidiano da vida prisional. Não há efeitos fáceis, não há imagens desnecessárias, neste fascinante relato.
Inesquecível entre outras é a cena em que os prisioneiros de Rebibbia, através das grades das suas celas, representam o povo de Roma que recebe César, acompanhado dos seus próximos, que são os actores seleccionados entre a população prisional. Extraordinário a interpretação de Cassius, por um dos detidos, Cosimo Rega. Tão brilhante que só no final, no genérico, nos convencemos que se trata de um amador, de um homem detido em Rebibbia.
Para mim, esta obra é uma das mais brilhantes incursões no cinema do universo shakesperiano. E também o filme de que mais gostei entre os vistos até ao momento nesta temporada cinematográfica.

(Nótula publicada no Facebook)

http://www.google.com/imgres?num=10&hl=pt-PT&biw=1262&bih=634&tbm=isch&tbnid=Zrh0604kdZ4o6M:&imgrefurl=http://zerohora.clicrbs.com.br/rs/cultura-e-lazer/segundo-caderno/noticia/2012/02/berlim-coroa-os-irmaos-taviani-e-seu-shakespeare-entre-presos-3668789.html&docid=aT5U0AuEvRuKcM&imgurl=http://zerohora.rbsdirect.com.br/imagesrc/13054842.jpg%253Fw%253D620&w=620&h=532&ei=fUOVUPyfKZSyhAfzhwE&zoom=1&iact=hc&vpx=399&vpy=315&dur=4022&hovh=208&hovw=242&tx=98&ty=160&sig=105644211311266120942&sqi=2&page=1&tbnh=134&tbnw=159&start=0&ndsp=15&ved=1t:429,r:11,s:0,i:99

NOTA A POSTERIORI 

"Penso que o Neo-Realismo do Cinema Italiano foi uma das grandes contribuições da Itália para a arte em geral, durante o último século. E fez do cinema uma das máximas expressões da arte e cultura italianas. Não penso que, como ideia, esteja a morrer."
(Paolo Taviani, um dos Irmãos Taviani, autores de "CÉSAR DEVE MORRER", em entrevista)

Entretanto o filme, obra magnífica, em minha opinião (e não só) o melhor que vimos esta temporada nos ecrãs portugueses e Urso de Ouro da Berlinale 2012 (Festival Internacional de Cinema de Berlim), já estreou. 

Já não me espanto de nada neste país. No entanto registo: estreia numa única sala em Lisboa (Corte Inglês), reduzida divulgação nos quotidianos com suplementos especializados, que costumam encher páginas e páginas com outras estreias, quase sempre de reduzido ou nulo interesse. (OBS: está a ser exibido também no King Triplex)

Em face disto só me resta pedir uma coisa: Amig@s, se gostam de Cinema e se interessam pela Cultura, então não percam!

O GEBO E A SOMBRA, de MANOEL DE OLIVEIRA


“O GEBO E A SOMBRA”, de Manoel de Oliveira (POR)

(publicado no facebook e "não publicado" no Cartaz de Cinema do "Público"/ Indeks)

De cada nova obra do decano dos cineastas (a nível mundial, 103 anos) espera-se sempre algo de muito pessoal, que ele nos queira transmitir, a nós espectadores mas também provavelmente aos seus pares.
Embora esta peça de Raul Brandão, “O Gebo e a Sombra”, contenha algo de contraditório: por um lado um desespero quase niilista (estado de espírito que está a reaparecer entre nós, neste início de século, perante o regresso da exploração mais selvagem, dos mais pobres pelos mais ricos, nesta fase de refluxo dos direitos humanos em mais um episódio da luta de classes, que essa mesma luta se encarregará de corrigir mais cedo ou mais tarde); por outro lado uma exaltação da honestidade (hoje cada vez mais rara entre as classes dominantes. Mas não terá sido sempre assim entre os dessas classes?) e do espírito de sacrifício, apesar da sua aparente inutilidade, já que só isso não chega, porque não elimina  as injustiças. Terá sido isso que seduziu Oliveira?




De resto é como sempre o primado da voz e dos actores, em longos planos fixos, e só por estes actores do nosso contentamento já valeria a pena ver este belo filme, porque eles são magníficos, a interpretar os diálogos da peça de um autor a que já chamaram o mais tchekhoviano dos escritores portugueses. Convém no entanto lembrar outras das suas obras, de “Os Pobres” a “Húmus”, passando pelos livros de viagens – “Os Pescadores”, ele que descendia de homens do mar, até ao teatro, nomeadamente essa famosa tragicomédia “O Doido e a Morte” e relembre-se que, ainda há pouco tempo, Alexandre Delgado, se serviu dela para libreto de uma ópera e Joaquim Benite, encenou-a no teatro, do que resultou um espectáculo conjunto que nos fascinou, até pela modernidade do texto.
Para terminar desejava só lembrar uma frase chave no filme, porque Oliveira, e os seus actores, também a sublinharam:

“Sofia (como quem fala doutra coisa maior que a subjuga):
Mas se essas pessoas ricas lhe perdoassem?
Gebo: Perdoar o quê? O dinheiro, filha? O dinheiro nunca se perdoa.”

SEMANA CULTURAL do INTERVALO GRUPO DE TEATRO




Diário de um mero espectador, que não é crítico (mas que tem muito respeito pela crítica, quando é de qualidade).
Pequenas notas sobre a Semana Cultural do Intervalo Grupo de Teatro - entre 8 e 14 de Outubro de 2012
 Obs: Este ano apenas falhei uma sessão, dedicada à música popular, por impossibilidade física e com muita pena minha

SEGUNDA, 8
Homenagem a um grande homem do Teatro, Helder Costa, que dirige juntamente com uma das grandes actrizes portuguesas, Maria de Céu Guerra (não esteve presente por estar a actuar fora do país), a companhia "A Barraca", cujo repertório, em parte com peças do próprio Helder Costa,  muito apreciamos, por ser um teatro popular mas sempre de grande qualidade.
 
O seu convidado João Afonso, foi magnífico como sempre, a cantar o Zeca, mas também as suas canções! Participaram ainda Tino Flores, o cantor de intervenção, que continua a dizer-nos coisas importantes (mesmo que alguns digam que estão datadas) e Zeca Medeiros, o multifacetado artista açoreano, outra voz inconfundível de que tanto gostamos, também autor de algumas séries televisivas, entre as quais a inesquecível “Xailes Negros”, realizada integralmente nos Açores.
 
TERÇA, 9
Ana Lains, cativante presença da fadista numa festa de homenagem a um grande nome da Música Portuguesa, Fernando Alvim, o compositor, instrumentista e também acompanhante durante muitos anos do nosso Carlos Paredes. Também colaboraram o professor e musicólogo Rui Vieira Nery, numa magnífica intervenção e Marco Rodrigues, excelente no fado.
 
Foi uma homenagem tocante, com aqueles momentos mágicos que não esquecemos – como quando Fernando Alvim subiu ao palco e tocou. Gostei muito!
 
QUARTA, 10
Pedro Barroso,  homenageado em mais uma sessão desta semana cultural, organizada pelo Intervalo Grupo de Teatro.
 
Para não fugir à regra, foi magnífica, saindo nós daquele carismático espaço de Linda-a-Velha, sempre com a certeza de que temos, e vamos continuar a ter, grandes valores na área cultural.
 
Pena é que sem os apoios devidos por parte das entidades que gerem a cultura neste País (agora já nem ministério há!!!). Mais um sinal da incultura da maioria dos governantes das últimas décadas. E, nem por acaso havíamos ouvido na véspera, no mesmo espaço, sábias palavras de um dos últimos responsáveis governamentais que deixou obra, Rui Vieira Nery (no ministério dirigido por Manuel Maria Carrilho), na homenagem a Fernando Alvim.

Comemorava-se o 43º aniversário de carreira do celebrado canta-autor, de que tanto gostamos, mas sobre o qual cai, a maior parte das vezes, uma pesada cortina de silêncio por parte dos meios de comunicação dominantes (e dominados por interesses que raramente são os da cultura ao serviço da população). 
 
Pedro Barroso, tem este ano um novo trabalho editado, "Cantos da Paixão e da Revolta", título bem apropriado ao que foi a sua magnífica e por vezes emocionante no Intervalo. Foi muito bom! O que é extensivo aos artistas mais jovens que convidou para o acompanharem, nomeadamente Teresa Tapadas e Nuno Barroso.
 
Uma palavra final para referir a belíssima intervenção de Correia da Fonseca, que situou a figura e a obra do homenageado na nossa Cultura, aquela que nos honra.
 
QUINTA, 11
Homenagem ao possuidor daquela voz inesquecível para os que há cerca de 5 décadas vivem neste país. Luís Filipe Costa, o jornalista, o homem da rádio, que teve a honra de ler (com Joaquim Furtado) os comunicados do MFA (Movimento das Forças Armadas), no mais belo dia da História de Portugal (nunca gosto de utilizar a expressão "o mais", mas neste caso faço-o conscientemente, porque é isso que penso).
 
Mas diga-se que antes dessa madrugada já o ouvíamos e continuámos a ouvi-lo depois.
 
Belíssima homenagem, mais uma desta semana cultural, que teve também a presença do convidado de Luís Filipe Costa, Manuel Freire, outra voz inesquecível do nosso contentamento.
 
Mais uma noite extraordinária naquele que é um dos mais belos espaços de Cultura da nossa cidade, talvez do nosso País. Pelo menos eu não conheço outro com estas características. O que resulta, na minha opinião, em primeiro lugar dos que o dirigem, pela sua fraternidade e cultura ímpares e também da sala que utilizam, que possibilita uma rara corrente de emoção entre palco e público.
 
SÁBADO, 13
Foi a noite da música erudita, que nos últimos anos tantos momentos inesquecíveis nos tem proporcionado naquele espaço de cultura e, repito, de muita fraternidade.
 
A homenagem foi ao tenor Carlos Guilherme, que veio acompanhado da soprano Ana Ester Neves e do maestro e pianista João Paulo Santos. Tendo a apresentação do homenageado sido feita por João Pereira Bastos, que foi durante algum tempo director da Antena 2 e agora a dirigir o  renovado Fórum Luisa Todi, em Setúbal (reabriu há poucas semanas), onde assistimos, há alguns anos  no velho cine-teatro, a algumas das actuações do homenageado e seus convidados, em colaboração com o Coral Luisa Todi e, nomeadamente, no sempre lembrado “Porgy and Bess”, a ópera de George Gershwin, espectáculo dirigido pelo jovem maestro Paulo Lourenço e que veio aliás na altura a Lisboa (Teatro da Trindade), num sucesso assinalável, considerando até que a maior parte dos participantes, os coralistas, eram amadores.
 
Foi uma sessão magnífica, a relembrar-nos grandes actuações anteriores destes três artistas, a que tive o privilégio de assistir.
 
DOMINGO, 14
Foi com a representação de "George Dandin", de Molière, que havia sido estreada em Março e agora voltámos a ver com prazer redobrado, que o  Intervalo Grupo de Teatro fechou da melhor maneira mais uma inesquecível Semana Cultural.
 


Salvo erro foi a 33ª (e que pena temos de não termos assistido a todas!) em 43 anos de existência daquele Grupo, criado por Armando Caldas em 1969, director e encenador principal, e por mais um grupo de amigos, entre eles, Correia da Fonseca, que continua a colaborar assiduamente no Intervalo, com belíssimos textos, que ele próprio lê, sobre alguns dos homenageados.
 
“George Dandin” é uma das comédias do grande dramaturgo francês, cheia de humor mas também de forte crítica social, que vai prosseguir por mais dois fins de semana até ao fim de Outubro, sexta e sábado às 21.30, no Auditório Lourdes Norberto, em Linda-a-Velha, e se ainda não viram não percam. É Molière e muito bem representado e encenado, por isso é um prazer assistir!
 
No final da Semana, parabéns ao Intervalo Grupo de Teatro, ao encenador, actores (magníficos) e demais colaboradores. E até para o ano, se nada acontecer que nos impeça de assistir!

NEWS FROM HOME, de Chantal Ackerman


No DOCLIS (CULTURGEST)
São preciosidades que raramente temos possibilidade de ver num ecrã decente (grande). 
Foram dois dos primeiros trabalhos da cineasta belga, Chantal Ackerman (nascida em Bruxelas, 6-Jun-1950), durante a sua estadia em Nova Iorque, no início da sua carreira, nos meados dos anos 70. 
Vimos dois filmes pertencentes ao que alguns designam por Trilogia de Nova Iorque: "O Quarto" (La Chambre) (1972), constituído por um famoso plano circular, de 11', na habitação de Chantal e o mais conhecido, "News from Home" (Notícias de Casa) (1976), onde a cineasta filma Nova Iorque, enquanto lê as cartas que a mãe lhe envia da Bruxelas natal, iguais a todas as cartas que os pais enviam aos filhos ausentes e de quem gostam. 
São magníficas as imagens de Nova Iorque, longe do centro urbano, o dos armazéns e lojas, e habitado pela grande burguesia. O que vemos são principalmente as margens de Manhattan, as ruas junto ao rio, as carruagens de Metro, pejadas de gente, e com as carrocerias cheias das "pinturas" da droga, tal como as paredes dos grandes blocos (tudo isso que décadas mais tarde seria exportado para as grandes cidades europeias - Londres, Frankfurt, Hamburgo, etc, etc, até chegarem aqui, onde vivemos). E o final da obra é magnífico, com a imagem da cidade a desvanecer-se no horizonte, perante os nossos olhos.
 

A inesperada presença da realizadora, na sessão (e nós que a confundimos com uma das jovens e simpáticas colaboradoras do DOCLIS ou da CULTURGEST!), constituiu uma agradável surpresa. Falou de si e da sua obra com a simplicidade que esperávamos dela, não se esquecendo sequer de falar da colaboração fundamental, neste e noutros filmes, de Babette Mangolte, também cineasta.



Agora esperamos ter mais ou outra boa surpresa que vamos procurar, pesquisando o programa (com uma lupa, dada a incrível pequena dimensão das letras... Posso rir?) e aguardar pela sessão de encerramento e pelo que julgamos ser um magnífico filme, o dos irmãos Taviani, "César deve Morrer", por aquilo que temos lido na imprensa da especialidade, e de qualidade. Embora, também seja de aguardar alguma polémica porque na obra dos Taviani, o aspecto político nunca é escamoteado!

TO ROME WITH LOVE (Para Roma com Amor), de Woody Allen


PRAZER CINÉFILO
(publicado no Facebook e no Indeks/Cartaz de Cinema do "Público")

Dedicado aos que gostam tanto ou mais que eu, da Sétima Arte.

Sugiro que não percam "TO ROME WITH LOVE" (Para Roma com Amor), de Woody Allen. Não que seja o melhor filme que este grande cineasta já fez, ao longo duma obra  já relativamente longa, mas sempre de qualidade elevada. É só que, uma vez mais, é muito "alleniano", se me é permitido o termo, em que estão presentes as ideias e a ironia do autor.

 


Homenagem também a Roma que, para quem conheça, não deixa de ser tocante e nostálgico. O encontro com una bella ragaza (ou vice-versa, suponho) em Trastevere, eis o que, os que conhecem e gostam desta cidade, não esquecerão jamais e recordarão ao ver o filme.

São quatro pequenas estórias, que nunca se cruzam, mas estão misturadas na obra, de durações completamente diferentes (o tempo aqui pouco importa), que vão de um dia a um mês, novamente com uma direcção de actores soberba, em que é difícil salientar um, mas arrisco-me a citar Ellen Page, magnífica na jovem Mónica e Alec Baldwin, este pelo fascínio do seu papel, com o seu quê de mágico (outra brilhante ideia de Woddy Allen), para já não falar na sua homenagem aos grandes cantores de duche, que ninguém conhece, mas que, às vezes, cantam bem e não sabem o talento desconhecido que têm. E claro que uma estrela como Roberto Benigni tinha que brilhar e a sua estória, da personalidade fabricada pelos Media, fez-me lembrar os paparazzi de Fellini (numa obra-prima, La Dolce Vita).
 
Em suma, um prazer inteligente, para ver com um sorriso, às vezes no limite da gargalhada.

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

OBRAS PRIMAS DE QUE GOSTO MUITO (2)


VELIKII GRAJDANINE (Um Grande Cidadão) (1ª Parte – 1937, 2ª Parte – 1939), de Friederich Ermler (URSS) ***** (5)

Trata-se de uma obra, magnífica, em duas partes, num total de 4 horas e 45 minutos, sobre os anos dificílimos de construção do Socialismo, na União Soviética.
Como obra sobre um período revolucionário, referindo-se aos anos de 1930-35, em que os explorados estão no poder, não estará nunca datada, porque descreve as dificuldades, as divergências, as traições, as sabotagens, em tal período. Algumas cenas, apesar de terem quase um século, parecem-nos actuais (em 2007), em termos de comportamentos.
O filme descreve a vida e o assassinato do dirigente comunista Serge Kirov (sob o nome de Chakov, admiravelmente interpretado por N.Bogolioubov), de acordo com a versão oficial na época, a qual viria a ser mais tarde contestada.


Mas para além disso, é a maneira admirável como aquele grande cineasta soviético filma as personagens, muitas vezes em grandes planos, conseguindo dar-nos o seu retrato psicológico, que tornam o filme perfeitamente actual em termos de linguagem. Filme principalmente de diálogos intensos, tem no entanto meia dúzia de exteriores magníficos – os plenários na fábrica, as reuniões com os operários e população, as manifestações, as obras da construção do canal.
A figura da Mulher é fortemente exaltada, equiparando-a ao Homem, no trabalho, na direcção da fábrica e no partido. Uma das cenas mais fortes do filme é o discurso da mãe de Chakov no plenário, mas há mais meia dúzia de figuras femininas admiráveis, que sobressaem na obra.
O assassinato de Chakov, é dado elipticamente, como em geral o fazem os grandes mestres, adquirindo enorme força.
Mas um dos aspectos que mais me surpreendeu foi a maneira como o ideal comunista, no comportamento, nos é dado, com muita inteligência, sem nunca recorrer a frases feitas, mas antes ao que acontece na prática, perante os acontecimentos favoráveis ou desfavoráveis.

Nada disto foi, no entanto, referido na respectiva folha de sessão da Cinemateca, num texto algo primário. Lamentáveis também os erros ortográficos (e não só) inacreditáveis (“houveram”, por exemplo) da legendagem electrónica. Feita aonde? Na própria Cinemateca? Mesmo autor?

Terminada a projecção é inevitável que nos interroguemos, se não foi uma formidável proeza, única na história da humanidade, o poder dos explorados, dos oprimidos, conseguir resistir durante tantas décadas, perante a força do inimigo, que recorreu a todos os meios para o minar, para o sabotar?
Admirável obra, de um período fecundo para a arte cinematográfica – o das gerações que fizeram a Revolução de Outubro.
***** (5)

(visto na Cinemateca, em Mar-2007)

TRÊS FILMES RECENTES - Três pequenas notas de gosto


TRÊS FILMES – Três pequenas notas de gosto


Ver Cinema, no CineAvante!, Festa do Avante! de 2012 (a foto é minha)

SAVAGES (Selvagens), de Oliver Stone (EUA) –

Um thriller, provindo da indústria do cinema dos EUA, com imagens de grande violência e sexo, que agradam em geral a públicos pouco exigentes. Tecnicamente muito bem feito, como aliás alguns dos produtos ali fabricados, que ficam bem acima da qualidade média dessa indústria. No entanto “Savages” distingue-se.
Porquê? É que Oliver Stone, como lhe é habitual, não esconde o “estado da nação”, cada vez mais na mão de poderosos lobbies, com interesses à escala mundial: financeiros, de fabricantes de armamento, dos grandes negócios, como a droga. E, ironicamente, oferece ao espectador dois finais possíveis naquele estado de coisas, como quem diz: Escolham o que gostarem mais! Essa ironia, obviamente, irrita os defensores do status quo, daí o tentarem “queimar” a obra nas colunas a que têm acesso. A ver, portanto!

360, de Fernando Meirelles (EUA) -

O celebrado cineasta brasileiro conseguiu captar o nosso interesse, com inteligência e, às vezes, com emoção, neste retrato circular (ou elíptico) dos tempos que correm, entrecruzando flashes breves sobre a vida de uma dezena de personagens.
A jovem brasileira, Laura (Maria Flor) assume particular destaque, porque representa muito do que, julgo, é comum a grande parte das novas gerações e, por isso, não conseguimos deixar de sentir por ela uma grande simpatia, pela busca desesperada de quem começa muito cedo a duvidar do que a vida lhe poderá vir a trazer.
Desejos (compulsivos, às vezes), desilusões, amarguras, frustrações, excessos, renúncias (por motivos de crença religiosa!...), desesperanças, eis do que é feita esta obra, com dois ou três momentos magníficos que ficam na nossa memória cinéfila e isso já é muito bom perante a mediocridade, vacuidade e inutilidade da maioria do cinema que é distribuído (e promovido...) pelas salas do nosso País.
Bela direcção de actores, também, dos veteranos ao mais jovens. Vale a pena ver.

7 DÍAS EN LA HABANA (7 Dias em Havana), Benicio del Toro, Pablo Trapero, Julio Medem, Elia Suleiman, Gaspar Noé, Juan Carlos Tabio e Laurent Cantet (FRA/ESP) -

Sete realizadores, de diferentes nacionalidades - um porto-riquenho, dois argentinos, um espanhol, um palestino, um francês e um cubano, apresentam sete visões, quase sempre surpreendentes, da capital cubana, através de um guião escrito por um escritor cubano, Leonardo Padura Fuentes (Havana, 1955).
O resultado, como sempre acontece em obras deste tipo, é um tanto ou quanto desigual. Inesperado às vezes, pela originalidade que os criadores sempre procuram, aflorando os aspectos às vezes mais insólitos da realidade. Mas muito longe de ser, obviamente, um retrato da sociedade cubana, que tem como se sabe elevados padrões de Cultura - na ciência, na medicina, nas artes, no desporto, além dos políticos e sociais, em que a fraternidade e justiça social predominam, e que o filme quase não refere.
Sabe-se que o retrato duma cidade, para que não se caia do “dejá vu”, no lugar comum ou no bilhete postal, não é fácil. Apesar de tudo, em minha opinião, afloram nesta obra algumas das características que permitem a este povo defender a sua Revolução, há mais de meio século, contra  o criminoso bloqueio económico e não só, levado a cabo pelo mais poderoso dos vizinhos, os EUA, estado dominado maioritariamente por políticos sem escrúpulos.
Pablo Trapero com Emir Kusturica, Elia Suleiman com ele próprio, Laurent Cantet, Juan Carlos Tapio, distinguem-se pela qualidade fílmica dos episódios que dirigiram.




domingo, 23 de setembro de 2012

DANS LA VILLE BLANCHE

Branca, porque é a cor predominante dos seus edifícios e da luz que a inunda grande parte do ano.




segunda-feira, 27 de agosto de 2012

NA FUNDAÇÃO JOSÉ SARAMAGO



Localizada na Casa dos Bicos, ao Campo das Cebolas, a seguir ao Terreiro do Paço / Praça do Comércio, em Lisboa. Amig@s, não deixem de visitar a Fundação, dirigida pela sua companheira, a jornalista Pilar del Rio, que tanto admiramos também. 


A exposição "A Semente e os Frutos", a Livraria/Biblioteca e o Auditório, com o vídeo sobre a Casa de Lanzarote. Mas, acima de tudo, para lembrar o escritor e o cidadão, que é para nós uma referência, e a sua vasta e inesquecível obra.
Será didáctico e muito bom levar os mais jovens da família e explicar-lhes quem foi este homem e qual a sua obra, em contraponto às mediocridades que lhes são apresentadas massiva e quotidianamente pelos canais de televisão.
Nota: não há fotos do interior para não danificar os delicados objectos expostos - blocos notas, originais manuscritos, agendas, entre as quais se encontra a da folha seca conservada desde o dia em que José e Pilar se conheceram. Romântico gesto que os leitores fiéis compreenderão melhor que ninguém!



(nota: todas as fotos são minhas)


OBRAS PRIMAS DE QUE GOSTO MUITO (I)


Playtime (Vida Moderna), de Jacques Tati, FRA, 1967

Claro que não é um filme deste ano! Trata-se duma cópia nova de uma das geniais Obras-primas do Cinema, realizada pelo cineasta francês Jacques Tati.
Sendo de 1967, é no entanto um filme avançado no tempo, na sua crítica à desumanização da “vida moderna”, dominada por máquinas e burocratas, agora de roupagens neoliberais.
Neste início de século, cinquenta anos passados, quando os vejo passar em bandos, todos vestidos de igual, cinzentos, azuis ou castanhos, com gravatas a condizer e às vezes de dissonância kitsch, a caminho da reunião, do “meeting”, da assembleia de accionistas, não consigo deixar de ter vontade de soltar uma gargalhada (nem que seja para dentro). E lembro Chaplin, e lembro Tati. Também os podemos combater pelo Humor.
Nesta enésima visão da obra, agora em 2004, confesso que o mais me tocou, para além da crítica à desumanização da vida moderna (actualíssima, apesar dos quase 50 anos passados, a única coisa que não é actual, disse-me um amigo, são os modelos dos carros...), é a maneira como a personagem de Monsieur Hulot, vai servindo de contraponto à desumanização das situações.
Primeiro, na ida à sede da grande empresa, onde, após mil e uma peripécias, em que chega a abrir a porta da sala de reuniões onde está reunida a administração, Hulot consuma a reunião na rua do bairro, quando o quadro superior, com o nariz entrapado pela cabeçada nas paredes de vidro do edifício modernista, vai passear o cãozinho depois de jantar.
Depois, na espectacular sequência do restaurante nocturno, de moda, em que a entrada de Hulot serve de ponto de partida para o desencadear da aceleração dos incidentes, ou acidentes, que conduzirão às hilariantes e frenéticas sequências finais.
Por último, nas imagens de Paris, ao romper da manhã, agora já com outros personagens, o povo trabalhador parisiense, uma vez que a grande burguesia recolheu a casa, cansada de mais uma noite de estúrdia. E onde não podia faltar o romantismo, terno e comovente, da Cidade Luz, com o episódio da prenda à jovem turista americana, émulo feminino de Hulot, na curiosidade com que tudo quer ver, isto é, aquilo que merece ser visto.
E o filme culmina numa sinfonia de imagens e sons da grande cidade, que nos surge, apesar de todas as suas fraquezas e disparates, encantadora, também aos olhos dos turistas que a deixam, de autocarro, com destino ao aeroporto. E de certo modo é isso que o cinema de Tati é: crítico da sociedade, mas ao mesmo tempo procurando resgatar o que as pessoas têm de melhor, criticando-as pelo ridículo, mas em última análise com um olhar de simpatia pelas pequenas fraquezas humanas. Os maus sentimentos ficam, quase sempre, na sombra. Não interessam ao cineasta.
Principais filmes de Jacques Tati (para quem não se lembre): Festa na Aldeia, As Férias do Sr.Hulot, O Meu Tio, Playtime, Trafic, Parade.