Cultura!

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OBJECTIVOS

Estes textos são uma mera justificação de gosto, dirigida em primeiro lugar aos amigos, e não são crítica de cinema, muito menos de teatro ou arte em geral... Nos últimos tempos são maioritariamente meros comentários que fiz, publicados principalmente no facebook ou no correio electrónico, sempre a pensar em primeiro lugar nos amigos que eventualmente os leiam.
Gostaria muito de re-escrever os textos, aprofundando as opiniões, mas o tempo vai-me faltando...
As minhas estrelas (de 1 a 5), quando as houver, apenas representam o meu gosto em relação à obra em causa, e nunca uma apreciação global da sua qualidade, para a qual não me sinto com competência, além da subjectividade inerente. Gostaria de ver tudo o que vale a pena, mas também não tenho tempo...

terça-feira, 19 de julho de 2016

ARSENAL, de ALEKSANDER DOVJENKO


ARSENAL, de Aleksander Dovjenko (URSS-1929)

Outra das obras-primas do cinema mudo soviético, realizadas nos anos 20. Este filme retrata o período da 1ª Grande Guerra (1914-1918), com todos os seus horrores mas ao mesmo tempo a difícil luta pela Revolução Socialista na Ucrânia, numa homenagem aos militantes comunistas que lutaram e pereceram na luta por um mundo melhor e mais justo. A imagem fortíssima do operário revolucionário ucraniano, oferecendo o peito descoberto às balas dos contra-revolucionários, fecha a obra.



No entanto já em 1965, o grande historiador francês do Cinema, Georges Sadoul, na sua famosa obra Dicionário dos Filmes (que ainda hoje utilizo e os críticos burgueses detestam. Pudera!), afirmava que na versão francesa desta obra-prima da 7ªArte:
"o argumento é difícil de seguir numa versão francesa remontada, enquanto era coerente e apaixonante na versão russa deste filme romanesco e lírico, obra-prima da arte do mudo."
Que diremos nós agora da versão remontada e talvez cortada que nos é dado ver? Lamentável mas ... provavelmente coerente com quem organiza estes ciclos...

Em todo o caso a grandeza das imagens é tal que a sua visão se justifica sempre!

De facto quando se cita este filme que é uma das grandes obras-primas deste cineasta soviético, nascido na Ucrânia, em Sosnitsi, Aleksander Dovjenko, filme realizado na URSS em 1929, é quase sempre a imagem do seu herói, o operário revolucionário ucraniano, Timoch, que na parte final da 1ª Grande-Guerra (1914-1918) regressa a casa, desertando da frente de combate da guerra imperialista, que a Revolução de Outubro (1917) condena e Timosh incita os operários do Arsenal a pegarem em armas para defenderem a Revolução. 
Os cossacos contra-revolucionários invadem a fábrica e provocam um massacre. 
Timoch enfrenta a peito descoberto os contra-revolucionários nacionalistas, numa imagem símbolo da Revolução invencível. E essa é a imagem que surge no final deste obra-prima, ao mesmo tempo poética e lírica da luta revolucionária.



No entanto, no ciclo onde vimos recentemente o ARSENAL, lamentavel e inacreditavelmente a imagem do operário comunista Tomish é substituida pela de cossacos contra-revolucionários, no prospecto distribuído na sessão e no ciclo! 
Porque os neo-nazis, voltaram recentemente ao poder na Ucrânia, apoiados pela NATO e pela fascizante UE, num sangrento golpe de estado, ilegalizando depois o Partido Comunista? 




segunda-feira, 18 de julho de 2016

BREVES NOTAS SOBRE O 33º FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA



BREVES NOTAS (tomadas na altura) SOBRE ESPECTÁCULOS VISTOS NO 33º FESTIVAL DE TEATRO DE ALMADA

Obs: Mereceriam obviamente outro tratamento mas já me falta o talento, a força e o tempo... Peço desculpa. 

1- HEDDA GABLER, de Henrik Ibsen, encenação de Juni Dahr




O 33º Festival de Teatro de Almada começou de maneira brilhante na Casa da Cerca!
Para quem gosta de Ibsen imagine o que se poderá fazer num espaço belíssimo como é a Casa da Cerca, espaço de exposições e eventos da Câmara Municipal de Almada, com Lisboa em fundo.

Mas o que esperávamos foi superado por esta magnífica encenação da peça HEDDA GABLER, pela encenadora e actriz norueguesa, também cineasta, Juni Dahr, acompanhada por outros 4 magníficos actores, uma mulher e três homens, do Visjoner Teater, de Oslo.
Espectáculo dito em norueguês, mas com uma tradução para português excelente e muito visível para todos quantos estavam a assistir.
Espectáculo quase íntimo, para apenas 60 espectadores por sessão, como gostava o grande dramaturgo norueguês, Henrik Ibsen, para aproximar o público dos actores e da representação.
Um longo e caloroso aplauso no final, com todos os espectadores de pé, pareceu-me até surpreender os actores, que talvez não o esperassem da parte de um público de língua tão diferente. Mas Almada é Almada e o público que criou tem uma cultura teatral invejável e rara.


2- A GAIVOTA, de Anton Tchecov, encenação de Thomas Ostermeier

Um famoso encenador alemão, Thomas Ostermeier, regressou a Almada com uma encenação muito moderna (mas não, pelo menos na parte principal, pos-moderna... felizmente!) de uma das grandes peças de Anton Tcheckov, A GAIVOTA.


É um grande texto que continua a suscitar interrogações e dúvidas de quem o vê representado (ou o lê) sobre o comportamento das pessoas... e dos artistas:
"Artistas!..." comenta a certa altura um dos personagens, o médico. 
Os comentários que o encenador incluiu na representação pecam, em minha opinião, por serem, no campo das ideias, um pouco confusos e ambíguos, pelo menos para mim, como o sobre os refugiados das zonas do mundo (Médio Oriente) vítimas de agressões e invasões da NATO e da UE para conquistarem fontes de matérias primas e por razões estratégicas favoráveis ao imperalismo,
Pessoalmente, no entanto, e no cômputo geral, achei muito bom, principalmente a partir de certa altura, onde se aproximou mais do clássico.



3- TRÓPICO DEL PLATA (Trópico do Mar da Prata), texto e encenação de Rúben Sabadini

(visto no Teatro Estúdio António Assunção, durante o Festival de Teatro de Almada de 2016)

Uma magnífica interpretação, de uma jovem actriz, Laura Nevole, transforma um espectáculo minimalista em algo que nos toca. 



E é quase sempre através da metáfora que o autor, o dramaturgo argentino Rubén Sabadini, nos descreve a relação de poder que se estabelece entre um homem, Guzman, e a sua amante, Aimée, uma jovem que recorre à prostituição para sobreviver numa grande metrópole, e que ele utiliza recorrendo à violência, como proxeneta e chulo. E as relações com os clientes, burgueses que se disfarçam, se escondem, para se servir daquela mulher. 
"O mercado da carne não funcionaria sem a cumplicidade de uma sociedade patriarcal prostituta que se sabe soberana e, no carnaval da história, a violência (institucional) contra a mulher disfarça-se de escolha pessoal e torna-se invisível por detrás da máscara."
"toda a violência (dos poderosos) é política porque a vítima é aquela que é tida por inferior."
"No mínimo este espectáculo procura não agradar a tantos espectadores de classe média que frequentam o teatro para expiarem as suas culpas de burgueses silenciosos e, como tal, complacentes." (palavras do autor, transcritas na folha da sessão)
Espectáculo à altura do Festival, com uma excelente legendagem, embora a clareza do castelhano argentino e a magnífica dicção de Laura Nevole a dispense muitas vezes.
De salientar ainda que, por esta interpretação, a actriz recebeu vários prémios no seu país.



4- GRAÇA - SUITE TEATRAL EM TRÊS MOVIMENTOS - autoria e encenação de Carlos J.Pessoa 

Este Festival também tem destas coisas: conduzir-nos a locais de grande beleza, neste caso o velho Teatro Taborda, na encosta do Castelo de S. Jorge, mas à altura da Senhora do Monte ou do Monte Agudo, que é um fascínio de instalações, de vista, de localização. E quanto à peça, GRAÇA - SUITE TEATRAL EM TRÊS MOVIMENTOS, concepção e encenação de Carlos J. Pessoa, para o Teatro da Garagem, é uma magnífica homenagem à pintora Graça Morais, cuja obra, de profundo sentido telúrico, pelo menos para mim, a sua sensibilidade e humanismo, admiramos desde há muito, sendo outro espectáculo que nos surpreendeu, principalmente pela sua concepção com recurso a meios vários, nomeadamente o vídeo, admiravelmente conseguidos.





Relembremos que a pintora é a autora do belíssimo cartaz do Festival e que duas exposições da sua obra são visíveis, na Casa da Cerca (até Setembro) e na Escola D. António da Costa (só durante o Festival).



5- DEIXA-ME QUE TE BAILE, dançado e encenado por Mercedes Ruiz

Para mim o Festival iniciou-se e terminou com dois espectáculos que achei brilhantes, de que gostei muito.

Para abrir, foi a HEDDA GABLER, a famosa peça de Ibsen, representada este ano na CASA DA CERCA e que viria ontem a merecer a escolha do público para Espectáculo de Honra de 2017 (fiquei contente porque gostei muito desta encenação). 

E o fecho, incluindo a homenagem a um grande homem de teatro, Ricardo Pais, foi outro espectáculo excepcional, DEJAME QUE TE BAILE, não de teatro mas de dança e canto, desta vez com o FLAMENCO, dançado pela que foi considerada este ano, em Espanha, a melhor intérprete desta Arte, Mercedes Ruiz (Jerez de la Frontera, 1980) e a sua Companhia. 

É difícil encontrar palavras para descrever o que se sente quando se assiste a um espectáculo de FLAMENCO, com esta enorme qualidade artística, com as suas origens em povos e culturas, com as quais as nossas ligações ancestrais são fortíssimas - árabes, judaicas e, principalmente, ciganas. Impossível não pensar em Frederico Garcia Lorca, um dos maiores poetas e dramaturgos da Literatura Universal e em tempos mais recentes, num grande cineasta, Carlos Saura e na sua maravilhosa trilogia sobre a música património universal - Flamenco, Tango e Fado.




6- CONCLUSÃO

Com imagens feitas por um modesto espectador e fotógrafo ocasional e outras, as de alguns dos participantes, de espectáculos que vimos, retiradas da NET.
Foi o 33º. E como diria o seu criador e fundador, o saudoso Joaquim Benite, já estamos a pensar em como será o 34º, onde esperamos ainda estar presentes, com o mesmo empenho e interesse...
Retenho as palavras do director artístico do Festival, Rodrigo Francisco, em entrevista que lemos - "... há um espectáculo que eu acarinho bastante e que é o espectáculo de encerramento no Palco Grande: Dejame que te baile, da coreógrafa e bailadora espanhola Mercedes Ruiz."
Também nós porque foi, em nossa opinião, um brilhante e maravilhoso encerramento para o Festival, mesmo que à sua programação deste ano possam ser tecidas algumas críticas mas isso ficará para outro espaço e momento ! 
E lamento muito não ter podido ver tudo o que me interessava.









sexta-feira, 15 de julho de 2016

O HOMEM DA CÂMARA DE FILMAR (Celovek s Kinoapparatom), de DZIGA VERTOV



O Homem da Câmara de Filmar (Celovek s Kinoapparatom) (Человек с киноаппаратом) (URSS-1929), de Dziga Vertov (1h20') 















O seu autor, Dziga Vertov (Denis Arkadievitch Kaufman - Bialystok, Império Russo (hoje Polónia) 2-Jan-1896 - Moscovo, URSS, 12-Fev-1954) , juntamente a sua companheira, Yelizaveta Svilova (Moscovo, 5-Set-1900 - 11-Nov-1975) que editou a obra e o seu irmão, Mikhail Kaufman (Bialystok, 5-Set-1897 - Moscovo, 11-Mar-1980), que a interpretou como o homem da câmara de filmar, publicaram o manifesto "Cinema-Olho" ou Cinema-Verdade", de que este filme é um primeiro, brilhante e inesquecível resultado.



Em 2012, a famosa revista Sight and Sound, publicada pela cinemateca britânica (BFI), no seu inquérito, a cada década desde os anos 50, aos principais críticos de cinema por todo o mundo para escolherem os Melhores Filmes de Sempre, coloca esta obra de Dziga Vertov como a 8ª mais citada entre as 250 que a revista inclui na sua lista, onde estão obviamente quase todos os melhores filmes feitos desde o nascimento da 7ª Arte.



Ao revê-la agora, mais uma vez, continua a impressionarmo-nos muito pela inventiva dos planos e das técnicas cinematográficas utilizadas, isto apesar dos avanços tecnológicos nas câmaras, no quase um século decorrido até hoje.



Mas é o olhar que continua a tudo, ou quase tudo, determinar e obviamente a montagem posterior do material filmado e que transformam este filme num fluxo admirável de imagens sobre a vida dos trabalhadores na sociedade soviética, poucos anos depois da vitória da Revolução Socialista de Outubro (7-Nov-1917, no nosso calendário), não esquecendo as imagens do tempo de descanso, pago, conquista também da Revolução, que os trabalhadores na sociedade capitalista só haveriam de conquistar em 1936, no governo da Frente Popular, em França. 

Há quem lhe chame hino ao progresso, ao Homem do futuro e eu concordo, com as imagens das fábricas e dos trabalhadores mas também do ritmo frenético da vida numa grande cidade.



O homem da câmara de filmar (Mikhail Kaufman, o cineasta irmão de Dziga Vertov) surge-nos sempre como mais um trabalhador, como os operários das fábricas ou das minas ou as operadoras das comunicações, que tem como tarefa filmar o que se passa, e não como alguém que apenas observa. 




Há um aspecto que se salienta muito das imagens desta obra-prima, aliás como da maioria dos grandes filmes soviéticos dessa época do início da construção do Socialismo, que é a da emancipação da Mulher, que se pretende igual ao Homem, em direitos, depois da Revolução.


Tudo isto sem um carácter panfletário. São antes as imagens que nos mostram a realidade.

Uma obra-prima absoluta do documentário e da 7ª Arte.




domingo, 10 de julho de 2016

ABBAS KIAROSTAMI (1940-2016)




HOMENAGEM A UM GRANDE CINEASTA

ABBAS KIAROSTAMI (Teerão, 22-Jun-1940- Paris, 4-Jul-2016)

Éramos praticamente da mesma idade. Nasci em Lisboa, Abbas em Teerão. 

Só muito mais tarde conheci os seus filmes, de que gostei muito desde o primeiro. Fui seguindo tudo o que a péssima distribuição de filmes no meu país, praticamente enfeudada ao grande império da indústria do cinema - o dos EUA, me permitiu.
Revi agora a sua última obra, LIKE SOMEONE IN LOVE (Como Alguém Apaixonado) de que continuo a gostar muito.

Relembro a pequena e modesta nota então escrita, mas referências a outras obras deste grande cineasta podem ser encontradas neste blogue 


"Não é o argumento que acima de tudo nos seduz – uma história de solidão e proximidade do fim de vida de um professor de sociologia, aposentado e viúvo, que os filhos já quase não visitam, que se deixa enredar numa teia de mentiras, “like someone in love”, demonstrando afinal que a experiência de vida neste caso de pouco lhe serviu. Tanto assim é que o próprio Kiarostami deixa a sua história em aberto...
É antes a maneira, uma vez mais, como este grande cineasta contemporâneo, o iraniano Abbas Kiarostami, filma, mas sem nunca fugir ao seu estilo, de que muito gostamos, sem excessos de nenhuma ordem, quase contemplativo às vezes, mas nunca nos distraindo do essencial. 

E no entanto parece que absorve a enorme cultura fílmica do país onde realizou a sua obra (comparar com as obras de Yajuziro Ozu, um dos grandes mestres do cinema nipónico, actualmente em exibição em Lisboa...). 

Que diferença para os trabalhos de alguns notáveis cineastas norte-americanos que quando filmaram no Japão parece que estavam a fazer westerns... 

Em pano de fundo, a voz inesquecível de Ella Fitzgerald, na canção que dá título à obra. 
Interpretações a condizer, de Rin Takanashi (em Akiko, a jovem estudante universitária, que se prostitui para pagar os estudos), Tadashi Okuno (no velho professor) e Ryo Kase (em Noriaki, o jovem apaixonado). E reparar como Kiarostami filma os seus personagens, em diálogo, no interior dos carros, no que é mestre, processo que tem repetido ao longo da sua obra. Relembrar em especial o famoso TEN (Dez), filmado na capital do seu país, Teerão, que praticamente decorre no interior de um automóvel. 
Muito recomendável aos que gostam da Sétima Arte."

Recorri à Wikipedia, que desta vez me pareceu aceitável, para incluir aqui alguns dados sobre a biografia de Abbas Kiarostami, para quem não conheça a sua notável obra






sábado, 9 de julho de 2016

CARMEN, de Prosper Mérimée e Georges Bizet, encenado por Armando Caldas



CARMEN, de Prosper Mérimée e Georges Bizet, com dramaturgia e encenação de Armando Caldas, tradução literária de Dulce Moreira, para o Intervalo Grupo de Teatro

Como habitualmente o Intervalo, pela mão do seu director e encenador principal, oferece-nos o que gostaríamos de designar, sem que isso signifique menoridade, de um "divertimento" de Verão, para simultaneamente apresentar o programa da sua Semana Cultural, a realizar em Outubro.

Desta vez não se trata das crónicas e da poesia de escárnio e maldizer, com que o Intervalo nos tem brindado nos últimos anos, para grande prazer nosso, mas sim de um delicioso resumo de uma das obras mais famosas do repertório operático clássico e um dos seus maiores sucessos de público. 

A Carmen, baseada na novela de Prosper Mérimée (Paris, 28-Set-1803 - Cannes, 23-Set-1870), escrita em 1845 e publicada dois anos depois, que Georges Bizet (Paris, 25-Out-1838 - Bougival, 3-Jun-1875) transformou em ópera, em 1875. 

Mas este super-dotado compositor não viria a conhecer o sucesso do seu trabalho, pois a estreia foi atribulada, com a grande burguesia a reagir violentamente contra o libreto e a crítica a vomitar insultos, e o grande músico viria a falecer pouco depois. 

"O carácter transgressor da protagonista provocou severas críticas na estreia da ópera, em Março de 1875. A aclamação popular só aconteceu em Outubro daquele ano, quando foi encenada em Viena, sob os aplausos de Brahms, Wagner, Tchaikovsky e Nietzsche. Porém, Bizet, que havia morrido em Julho, não pôde ver o sucesso da sua obra, que teria uma volta triunfal aos palcos de Paris em 1883" (da Wikipédia)

Com os limitados meios de que dispõe o Intervalo Grupo de Teatro faz maravilhas. O que mais uma vez aconteceu, fazendo sobressair os magníficos talentos vários das suas actrizes e actores, que cantam, dançam e representam, e de novo os belíssimos cenários de um artista e cenarista consagrado, António Casimiro. 

Um "divertimento" quase brilhante, que nos deu um grande prazer. Não desejando destacar nomes num trabalho colectivo que sempre nos surpreende, desta vez não poderei deixar de citar a protagonista principal, Cristina Miranda, que canta e interpreta magnificamente a bela Carmen e, num outro registo, Miguel de Almeida, num Escamillo, El toreador, por quem Carmen se apaixona e será a causa do desenlace fatal, actor que uma vez mais demonstra a sua versatilidade, aqui num desempenho que nos faz sorrir. Não sendo versado em touros devo reconhecer que a sua faena impressiona...

Deve citar-se que o Maestro João Paulo Santos participou nos ensaios, nomeadamente do acompanhamento musical ao vivo: piano tocado por Marina Dellalyan.

Sobre a personagem principal, a bela Carmen de sangue cigano, não vou acrescentar mais nada já que se trata de uma figura de todos conhecida e que de certo modo também é um mito da luta pela emancipação feminina, na sua vontade de se equiparar ao homem, na sua vontade de não se deixar dominar e poder exprimir livremente os seus desejos. 

Foi em meados do século XIX que a novela foi escrita e depois a ópera se estreou e um longo caminho foi, e continua, a ser percorrido no que diz respeito ao fim da subalternização feminina numa sociedade ainda dominada pelos homens em grande parte do mundo. 

Não esquecendo no entanto nunca as sociedades em que a igualdade foi instituída, por razões sociais e políticas, desde 1917, apesar de alguns, e grandes às vezes, recuos desde então, resultantes dos retrocessos políticos verificados 

Se puderem não percam! 



Adenda:

"Resumo do 4º acto: Em Sevilha, frente à praça de touros, uma multidão espera a chegada dos toureiros. Os vendedores aproveitam a ocasião para oferecer os seus produtos ao público. Aparece então a quadrilha e atrás dela, Escamillo e Carmen. À entrada do toureiro na praça de touros, Mercedes e Frasquita avisam a cigana da presença de Don José, mas ela mostra não ter medo de se encontrar com o seu antigo amante. A seguir, Don José retém Carmen quando tenta entrar na praça, suplicando-lhe que volte com ele. Ela responde-lhe que o seu amor por ele acabou. Do interior da praça soam as vivas a Escamillo. O desertor tenta deter com violência a cigana, mas ela atira-lhe despeitadamente o anel que ele lhe tinha oferecido. Em fúria, Don José enfia uma faca na barriga de Carmen. A multidão que vai saindo da praça assiste à terrível cena. Don José, cheio de tristeza, cai de joelhos junto ao corpo de sua amada Carmen" (na wikipedia)



terça-feira, 5 de julho de 2016

HEDDA GABLER, de HENRIK IBSEN, encenado por JUNI DAHR

HEDDA GABLER, de HenriK Ibsen, encenação de Juni Dahr

O 33º Festival de Teatro de Almada começou de maneira brilhante na Casa da Cerca!


Para quem gosta de Ibsen imagine o que se poderá fazer num espaço belíssimo como é a Casa da Cerca, espaço de exposições e eventos da Câmara Municipal de Almada, com Lisboa em fundo.





Mas o que esperávamos foi superado por esta magnífica encenação da peça HEDDA GABLER, pela encenadora e actriz norueguesa, também cineasta, Juni Dahr, acompanhada por outros 4 magníficos actores, uma mulher e três homens, do Visjoner Teater, de Oslo.

Espectáculo dito em norueguês, mas com uma tradução para português excelente e muito visível para todos quantos estavam a assistir.

Espectáculo quase íntimo, para apenas 60 espectadores por sessão, como gostava o grande dramaturgo norueguês, Henrik Ibsen, para aproximar o público dos actores e da representação.



Um longo e caloroso aplauso no final, com todos os espectadores de pé, pareceu-me até surpreender os actores, que talvez não o esperassem da parte de um público de língua tão diferente. Mas Almada é Almada e o público que criou tem uma cultura teatral invejável e rara.

Sente-se a tentação de um comentário mais alargado expondo as razões do gosto pela encenação e pelos textos de Ibsen e das suas estranhas mas fascinantes personagens. Mas vou deixar isso para mais adiante.
nota: tenho pena de não ter imagens da sessão, realizada às 15 horas da tarde.

Adenda (da folha de sessão e prospectos):
"A atriz e realizadora norueguesa Juni Dahr traz um Hedda Gabler íntimo, apenas 60 pessoas pode assistir a peça, respeitando a ideia de teatro íntimo do Henrik Ibsen. Casa da Cerca, sobre o Tejo, transforma-se em casa da Hedda Gabler, durante os dias 5 e 6 de julho.
Em 2013 Juni Dahr esteve perto de arrecadar o prémio do público com Mulheres de Ibsen, um espectáculo no qual, sozinha em cena, passava em revista algumas das heroínas do dramaturgo norueguês. No ano passado, em visita à Casa da Cerca, nascia a ideia de trazer a Almada Hedda Gabler, um projecto nomeado para o Hedda-Prize em 2011 e apresentado no Festival Ibsen, em Oslo, em 2012 e 2014. A digressão entretanto realizada levou-o, por exemplo, à Polónia e ao Irão. Transformando a Casa da Cerca, sobre o Tejo, na casa de Hedda, Juni Dahr propõe-nos um espectáculo intenso, só para 60 espectadores, cuja proximidade com os intérpretes proporciona, segundo a crítica norueguesa, “uma energia e um realismo que nos confrontam com o teatro íntimo de Ibsen”.


Juni Dahr (n. 1953, Oslo) fez a sua formação como actriz na Academia de Artes Cénicas em Oslo e no Teatro Laboratório de Grotowski, estudando posteriormente cinema e teatro na Universidade de Nova Iorque e no Actor’s Studio. Tem desenvolvido o seu trabalho como actriz com a companhia de Teatro Nacional de Bergen, onde interpretou uma grande variedade de papéis, dos clássicos (Shakespeare, Ibsen e Tchecov) à dramaturgia experimental moderna. Em 2015 dirigiu o espectáculo Instruções para voar, de Lídia Jorge, para a ACTA.

Intérpretes

Hauk Heyerdahl, Juni Dahr, Kai Remlov, Lars Øyno, Nina Woxholtt

Dramaturgia Juni Dahr, Tonje Gotschalksen | Figurinos Silje Fjellberg | Produção Marianne Roland | Visjoner Teater

Língua norueguês, legendado em português | Duração 1h35 | M/12"

sábado, 2 de julho de 2016

OUTUBRO, de SERGUEI EISENSTEIN

OBRAS PRIMAS DA SÉTIMA ARTE E DO CINEMA REVOLUCIONÁRIO - 

OUTUBRO, de SERGUEI EISENSTEIN 

Outra das obras-primas absolutas deste grande Mestre da Sétima Arte.
Visto em ciclo de filmes soviéticos a decorrer na nossa cidade.


Pena que a exibição desta extraordinária obra, realizada na URSS, em 1929, para comemorar o 10º Aniversário da Revolução de Outubro, não tivesse, nesta exibição de agora, o enquadramento que merecia, incluindo uma legendagem que permitisse uma visão mais completa desta obra-prima do cinema revolucionário, em todos os sentidos, incluindo o estético. Lamento não ter conseguido encontrar na Net fotogramas das imagens das grandes massas em movimento, que são uma das características mais brilhantes desta obra. 













Julgava que nenhum cinéfilo que se preze podia desprezar uma obra como OUTUBRO. Mas fui ler alguns textos sobre ela em obras sobre cinema que possuo e fiquei espantado com a desonestidade intelectual de alguns, na tentativa de justificar um anti-comunismo óbvio. É que tinha acabado de ver o filme e as imagens estavam bem presentes. Lamentável... 

Só posso dizer mais uma coisa: 
Vejam, revejam, esta obra-prima, que nem a passagem do tempo consegue ofuscar!