Cultura!

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OBJECTIVOS

Estes textos são uma mera justificação de gosto, dirigida em primeiro lugar aos amigos, e não são crítica de cinema, muito menos de teatro ou arte em geral... Nos últimos tempos são maioritariamente meros comentários que fiz, publicados principalmente no facebook ou no correio electrónico, sempre a pensar em primeiro lugar nos amigos que eventualmente os leiam.
Gostaria muito de re-escrever os textos, aprofundando as opiniões, mas o tempo vai-me faltando...
As minhas estrelas (de 1 a 5), quando as houver, apenas representam o meu gosto em relação à obra em causa, e nunca uma apreciação global da sua qualidade, para a qual não me sinto com competência, além da subjectividade inerente. Gostaria de ver tudo o que vale a pena, mas também não tenho tempo...

domingo, 17 de maio de 2015

MANOEL DE OLIVEIRA - UM MESTRE QUE DESAPARECE



HOMENAGEM A UM MESTRE

NOTA CINÉFILA - A propósito de O ESTRANHO CASO DE ANGÉLICA

Vi-a ontem, no pequeno e limitador ecrã de tv, a que julgo ser uma das últimas longas metragens de Manoel de Oliveira, estreada em 2010, pelo então já centenário cineasta.

Poderá ser uma obra menor na sua filmografia, mas consegue deixar sérias marcas na nossa memória cinéfila (pelo menos a mim...), E talvez eu não esteja só no gosto porque a programação do Festival de Cannes desse ano a projectou na abertura de "Un Certain Regard" ...


Para mim esta história de amor e morte ou morte e amor, é uma bela maneira de alguém que se sabe perto do fim tratar esse fim de uma forma que não deixa de ser poética, com alguns planos de enorme beleza (para mim, obviamente). 

Se pudesse ser assim...



CINEMA PORTUGUÊS - PRÉMIOS SOPHIA 2014, da ACADEMIA PORTUGUESA DE CINEMA




Foi, em minha opinião, o momento mais alto da como sempre interessante cerimónia de distribuição de prémios, principalmente pelo texto que Luís Miguel Cintra enviou e foi lido e bem, ao contrário de outros, este pela actriz Inês de Medeiros. 
Grande Homem de Teatro, encenador e actor, também no cinema, em grandes obras, principalmente nos filmes de Manoel de Oliveira, o mestre que infelizmente nos deixou no dia da realização deste evento.


E a propósito, não deixa de ser irónico que os principais prémios Sophia desta edição, para a realização e para o filme, tivessem ido afinal para o cinema comercial em detrimento do cinema de autor. Oliveira não teria votado certamente assim. 

Sinal dos tempos ou mera casualidade que a prestação de uma grande actriz, Maria do Céu Guerra, provocou?






PAISÀ (LIBERTAÇÃO)




PAISÀ (LIBERTAÇÂO) (1946), de Roberto Rossellini

Tal como "ROMA, CIDADE ABERTA", outra das obras-primas deste grande cineasta italiano, de novo com a colaboração de Federico Fellini, em início de carreira, e de Marcello Pagliero. 

Georges Sadoul dedica uma página inteira (!) do seu famoso Dicionário dos Filmes, de 1965, a esta obra maior do cinema de guerra. 


Relatos, através de 6 episódios passados do Sul ao Norte de Itália, da luta pela Libertação do país contra o fascismo e o nazi-fascismo. Sadoul salienta em especial os episódios de Florença e do Pó. E fala no apoio do grande poeta Paul Eluard ao filme.

Quase sem actores profissionais é uma obra admirável que continua a emocionar-nos hoje, em que se comemoram os 70 anos da vitória sobre o nazi-fascismo no próximo dia 8 de Maio (Atenção: não falhar a sessão comemorativa no Auditório Camões, em Lisboa, 18.00). 


Ainda vai ser possível ver esta obra na retrospectiva da obra do realizador a decorrer em Abril/Maio no cinema Nimas, em Lisboa (consultar programa). Quem puder que não deixe de ver. 

Ainda sobre PAISÀ (Libertação), obra-prima de Roberto Rossellini, filme do Neo-Realismo Italiano, uma visão humanista da luta do povo italiano para se libertar do fascismo e expulsar os invasores nazi-fascistas. 

Dos 6 episódios, Georges Sadoul, o célebre crítico e estudioso do Cinema tem razão: o último episódio, o passado no delta do rio Pó, é talvez o melhor. 

É o dos resistentes (partigiani) e dos paraquedistas cujos aviões foram abatidos pelos nazis e que se juntam à Resistência para combater os fascistas. 

As suas imagens, realistas, não se apagam da nossa memória. Embora a obra acabe tragicamente, com o assassinato daquele grupo de homens corajosos que não viram a cara à luta, a obra contém em si a esperança de novos dias, com a derrota do fascismo e o nascimento de uma enorme vontade de mudança. Hoje, mais de 70 anos passados, já sabemos o que se passou e como às vitórias se sucederam derrotas e depois novas vitórias e assim sucessivamente. A luta de classes permanece intensa e o refluxo das revoluções deste lado Atlântico faz os fracos desanimar. Mas novas vitórias já se divisam no horizonte, com o capitalismo em profunda crise de decadência, de que a corrupção, a falta de ética, a falta de princípios (que os políticos no poder espelham - cavaco, portas, passos, sócrates e seus seguidores) são sintomas evidentes.

O fotograma que juntei é de um dos momentos mais impressionantes da obra - o funeral do Resistente que os fascistas haviam morto e deitado o cadáver ao rio e que a Resistência resgata das águas ainda que com perigo da própria vida, para lhe dar sepultura nas margens do delta. As imagens são de um grande fotógrafo do cinema, Sergio Amidei.





Conforme foi salientado pelo crítico Adriano Aprà, no final da sessão a que assisti, esta obra foi produzida com dinheiro dos estúdios norte-americanos (o que não deixa de ser notar no filme...) e foi a mais cara desse ano, apesar da sua só aparente simplicidade, sem actores profissionais.


RATOS E HOMENS (2)



RATOS E HOMENS, John Steinbeck / Armando Caldas

Voltei a Linda-a-Velha ao Intervalo Grupo de Teatro para tornar a ver o espectáculo que até ao momento no decurso deste ano mais gostei: "RATOS E HOMENS", dramatização do celebre romance de John Steinbeck. 

Julgo que existe um forte aplauso generalizado de quem já viu esta encenação do Intervalo, pela mão do seu director, Armando Caldas. Não vou acrescentar muito ao que escrevi a quando da estreia desta peça no Auditório Lourdes Norberto, sobre a grande qualidade deste espectáculo.

Mas agora, ao ter conhecimento de opiniões, comentários, não posso deixar de citar o que li escrito por Judite Lima, personalidade da nossa Rádio que muito admiro pelos programas que dirigiu ou em que colaborou e não posso deixar de recordar o inesquecível Allegro Vivace, que fez com o Victor Nobre para a Antena 2. Fui nessa época um ouvinte fiel desse programa da manhã sempre que podia. "Já não há programas assim, dessa qualidade" é o lamento generalizado que oiço dos amigos.

Escreveu Judite Lima sobre "Ratos e Homens": "(...) Adorei!!!! Não percam. Saímos mais humanos, quando termina a peça. Obrigada pelo excelente espectáculo - não há cinema que ultrapasse o teatro." (13-Abril-2015).

Concordo! E eu, cinéfilo impenitente mas também grande amante do Teatro, não posso deixar de salientar a última frase. É que por muito mágica que seja a tela por onde passam sonhos, anseios, esperanças, desilusões do ser humano, nunca pode chegar ao pulsar dos corações dos actores que na nossa frente tentam representar a Vida. E em espectáculos particularmente intensos como às vezes este é, sentimos que os actores dão muito de si e surgem-nos fatigados pelo esforço que a representação exige. Há nesta encenação alguns momentos que não vamos esquecer - a morte do cão velho, o eclodir da violência entre os homens por causa da rapariga, o trágico encontro no celeiro, a cena final, no belíssimo cenário das margens do rio presente na abertura e fecho da peça e da autoria de António Casimiro.

Não me vou alongar agora mais nesta pequena nota. Apenas, lembrar a quem ainda não viu e o possa fazer, que não falte! Sei que alguns amigos/amigas já viram e gostaram muito e todos falam da emoção sentida, à beira das lágrimas. Surpresa para mim seria que isso não tivesse acontecido. NÃO PERCAM!!!

Abraços
19-Abr-2015, Egas


sábado, 16 de maio de 2015

ROMA, CITTÀ APERTA (Roma, Cidade Aberta)

ROMA, CITTÀ APERTA (ROMA, CIDADE ABERTA) (1945)

Rever esta obra-prima da Sétima Arte!

Filme realizado por Roberto Rossellini, em 1945, com a colaboração de Federico Fellini e Marcello Pagliero, naquela que é a melhor obra, em minha opinião, daquele grande cineasta italiano. 

Passada durante a ocupação nazi de Roma em 1943, durante a 2ª Grande Guerra Mundial, depois da prisão do líder fascista Mussolini. efectuada pela Resistência Anti-Fascista, o qual no entanto haveria ainda de ser libertado pelos nazis para fundar a república fascista de Saló e finalmente, e definitivamente, preso pela Resistência, condenado à morte e executado em 1945.

ROMA, CIDADE ABERTA é uma das obras no cinema mais impressionantes, pela sua autenticidade, do horror nazi-fascista, das torturas e crimes da Gestapo e dos seus acólitos fascistas italianos. Impressionante mas também emocionante pelo seu extraordinário final, de esperança na Liberdade. Havia lágrimas em muitos olhos, de emoção, no final da projecção.
Mas acredito que também ainda hoje faça mossa nos espíritos mais reaccionários (aliás basta ler o que sobre esta admirável obra escreveram certos conhecidos críticos portugueses, agora rotulados de neo-liberais... e para não me esquecer tenho excertos guardados).



Esta pequena nota é só para dar nota desta visão fundamental para quem goste de Cinema, mas não só. 

Lembrar a extraordinária interpretação de quase todos os participantes, mas com especial relevo, dada a notoriedade das personagens que representam, para ANNA MAGNANI, ALDO FABRIZI (no padre, baseado na figura real do abade Don Morosini, fuzilado pelos fascistas) e MARCELLO PAGLIERO (no militante comunista, quadro importante da Resistência, que é torturado até à morte pelos nazis, sem dizer uma palavra), iniciando aqui, principalmente os dois primeiros, carreiras brilhantes no cinema. 




SOBRE BERNARDO BERTOLUCCI



Um amigo lembrou-nos no facebook o aniversário de BERNARDO BERTOLUCCI (Parma, 16-Mar-1941), grande cineasta italiano, autor de algumas famosas obras-primas da Sétima Arte e também poeta.

Entre o que conheço cito obras admiráveis como NOVECENTO (1900), A ESTRATÉGIA DA ARANHA, O CONFORMISTA, O ÚLTIMO TANGO EM PARIS, UM CHÁ NO DESERTO, O ÚLTIMO IMPERADOR, ANTES DA REVOLUÇÃO.



Em 2003 realiza o seu penúltimo filme até agora e em minha opinião um dos mais carismáticos, embora tenha uma vez mais suscitado controvérsia na crítica dominante, com os mais conservadores a tentarem queimar a obra.

Trata-se de OS SONHADORES (THE DREAMERS), um olhar de BERTOLUCCI sobre a juventude, em geral de origem burguesa, estudantil, que participou activamente no Maio de 68. É também um filme muito cinéfilo, homenagem discreta à Sétima Arte.

Anos mais tarde (2013) BERTOLUCCI regressa com outra obra que nos surpreendeu pela qualidade, EU E TU, um olhar, quase terno, sobre a juventude actual e a sua falta de perspectivas de futuro num mundo que herdou, consequência das políticas de direita no poder nas últimas 4 décadas, com os resultados sociais desastrosos conhecidos, com a exploração a aumentar brutalmente e a classe dominante a ostentar uma riqueza atentatória da dignidade humana.

Os jovens radicais que BERTOLUCCI retratara nos SONHADORES, porém depressa haviam saltado na sua maioria para o outro lado da barricada e prestaram-se a colaborar com o sistema que queriam derrubar na juventude, tornando-o ainda mais injusto. Alguns participariam mesmo euforicamente no derrube do Muro de Berlim não se apercebendo (ou talvez sim) que estavam a contribuir para o início da construção de outros muros, mas muito mais criticáveis (fronteira do México, fronteira da Palestina, etc, etc).

Estas duas últimas obras (até à data) do grande realizador foram do melhor que vi nos respectivos anos de exibição no nosso País, destacando-se ambas da confrangedora mediocridade dos filmes em geral produzidos pelo sistema, mesmo que habilmente propagandeados pela crítica dominante...



Julgo que BERTOLUCCI é um dos últimos representantes do grande CINEMA ITALIANO do pós-guerra e segunda metade do século XX. Mas melhores tempos virão quando os berlusconi, os barrosos, os aznares, os zarcos, os blairs e todos os seus acólitos forem definitivamente corridos da cena política europeia. E isso será outra etapa da luta de classes.

Quando o grande cineasta BERNARDO BERTOLUCCI, visitou há alguns anos a zona de intervenção da Reforma Agrária, pensei que ele poderia ser um dos homens capazes de criar uma obra-prima de cinema, sobre esses anos inesquecíveis da Luta de Classes, que deram origem à mais bela conquista da Revolução de Abril. Apesar de alguns trabalhos documentais excelentes sobre esses anos, mas falta a grande obra de ficção, ao estilo de 1900, sobre essa luta pelo fim da exploração nos campos.

(Texto escrito directamente no facebook. Peço desculpa por eventuais erros e omissões)

MEMÓRIAS DA REFORMA AGRÁRIA - CENDREV


Em 11 de Março, na Casa do Alentejo, com sala cheia, estreia da última produção do CENDREV, o CENTRO DRAMÁTICO DE ÉVORA, o primeiro centro de acção teatral descentralizada criado após a Revolução de Abril, entre outros pelo saudoso encenador e teatrólogo Mário Barradas.


Memória da Reforma Agrária, a mais importante conquista da Revolução, através também das memórias de actores do CENDREV.
"REFORMA AGRÁRIA - 40 ANOS - 3 VOZES DO TEATRO", chama-se. com Álvaro Côrte-Real, Rosário Gonzaga e Victor Zambujo. Encenação de Luís Varela.



A não perder em futuras apresentações. 
Também para lembrar Mário Barradas, porque tivemos o privilégio de assistir ao seu derradeiro espectáculo, COMÉDIA MOSQUETA (2009), que repunha a velha encenação que havia feito para o CENDREV. No Festival de Teatro de Almada, no carismático Palco Grande, o da Escola.


Este espectáculo agora estreado é uma bela homenagem à luta dos trabalhadores alentejanos, apoiados pelo seu Partido, pela sempre sonhada e ansiada, e justa, Reforma Agrária. Luta na qual alguns dos mais corajosos, como Catarina, pereceram assassinados pelas forças da repressão a mando dos agrários e do governo fascista. Mas também depois do 25 de Abril, quando a Revolução perdeu força  e a política de direita regressou, através da famigerada e criminosa Lei Barreto, destinada a devolver os campos do Alentejo e Ribatejo aos grandes agrários e aos grandes interesses económicos.

Não percam portanto, em futuras apresentações, neste 40º Aniversário da REFORMA AGRÁRIA, este novo espectáculo do CENDREV, "MEMÓRIA AGRÁRIA - 40 ANOS - 3 VOZES DO TEATRO"!