Cultura!

Cultura!

OBJECTIVOS

Estes textos são uma mera justificação de gosto, dirigida em primeiro lugar aos amigos, e não são crítica de cinema, muito menos de teatro ou arte em geral... Nos últimos tempos são maioritariamente meros comentários que fiz, publicados principalmente no facebook ou no correio electrónico, sempre a pensar em primeiro lugar nos amigos que eventualmente os leiam.
Gostaria muito de re-escrever os textos, aprofundando as opiniões, mas o tempo vai-me faltando...
As minhas estrelas (de 1 a 5), quando as houver, apenas representam o meu gosto em relação à obra em causa, e nunca uma apreciação global da sua qualidade, para a qual não me sinto com competência, além da subjectividade inerente. Gostaria de ver tudo o que vale a pena, mas também não tenho tempo...

sábado, 1 de novembro de 2014

O HERÓI (NAYAK), de Satyajit Ray

NOTAS CINÉFILAS (só sobre o que me interessa e gosto muito e que não posso deixar passar sem uma referência...)


NAYAK (O HERÓI) (1966), de Satyajit Ray, visto no mini-ciclo sobre este autor, actualmente no Cinema Nimas, em Lisboa. Depois seguirá para o Carlos Alberto, no Porto.

Admirável obra deste grande realizador indiano (Cálcuta, Bengala, 2-Mai-1921 - 23-abr-1992). 

A propósito valer a pena ler o belo ensaio escrito sobre ele no magnífico catálogo da Cinemateca Portuguesa, "Cinemas da Índia", aliás um dos melhores, em minha opinião, publicados pela instituição. Coordenado por José Manuel Costa e editado em 1998 com apoio do MC (Ministério da Cultura). 

(MC? O que é isso? perguntarão aqueles que só agora, por uma questão de idade chegaram a estes domínios da Cultura. É que o Ministério da Cultura foi destruído assim que os actuais governantes, fascizantes e incultos, chegaram ao poder. Aliás um grande receio desse tipo de gente é a de que o povo se torne mais culto... basta ouvi-os e ve-los na comunicação social, arrogantes e convencidos, do alto da sua mediocridade)

Nessa obra da Cinemateca lê-se: "... (Satyajit Ray) um dos maiores realizadores da história do cinema, tanto indiano como mundial".

"O Herói" tem como protagonista principal um actor de cinema de grande sucesso popular. Através da sua história, em que os problemas da desumanização e do desenraizamento causados pela fama, efémera como sempre acontece nestes casos, o afastam dos outros e de si proprio, Ray fala-nos das preocupações que então sentíamos, e que infelizmente meio século depois permanecem, apesar de tudo o que se passou, desde os grandes avanços sociais do século XX até ao retrocesso e declínio da sociedade actual, coincidente com o início do século XXI. 

Retrocesso e declínio em termos humanos e dos valores que para muitos de nós pareciam então ter sido definitivamente adquiridos pela sociedade e de que nada os poderia destruir. Mas felizmente a cada retrocesso um novo avanço se seguirá e é essa certeza que nos faz acreditar no futuro, porque nada poderá deter a roda da história...

O humanismo deste grande artista, autor do argumento, da música e da realização, com uma admirável direcção de actores, surge em toda a sua plenitude nesta obra, mas Ray reflecte também sobre o Actor e do seu papel no cinema e sobre o próprio Cinema

Gostaria ainda de pedir aos amig@s que não percam esta obra, admirável, repito, e que reparem com atenção na famosa cena do sonho de Arindam, o Actor, afogado num "mar" de notas de 1000 rupias. Em 1966 ou em 2014, sejam grandes artistas ou simples desportistas (que também têm a sua arte).



PRÉMIOS DE CINEMA EM PORTUGAL


PRÉMIOS PARA AS OBRAS DE CINEMA PRODUZIDAS EM PORTUGAL


Joaquim Leitão recebeu o prémio da MELHOR REALIZAÇÃO, com ATÉ AMANHÃ, CAMARADAS. Adaptação à televisão e, no ano passado, ao cinema da obra de Manuel Tiago (Álvaro Cunhal), uma das melhores e mais importantes obras de ficção escritas em português, e não só, no século XX.


O cineasta afirmou, ao receber o prémio, para o qual foi escolhido por votação entre os membros da ACADEMIA PORTUGUESA DE CINEMA, que o período em que trabalhou nesta obra foi dos mais felizes da sua vida.

Foram também entregues prémios de carreira a três grandes nomes do Cinema Português: 

um mestre da fotografia, EDUARDO SERRA, 
um dos realizadores que mais aprecio, JOSÉ FONSECA E COSTA 
e um grande produtor, que fica ligado a algumas das mais célebres obras e nomes do nosso cinema, HENRIQUE ESPÍRITO SANTO. 





Foi bonita a homenagem, vibrantemente compartilhada por um público que enchia o grande auditório, maioritariamente jovem, aplaudindo de pé estas referências maiores da sua actividade e da arte em geral.

Houve ainda prémios para todas as categorias principais ligadas à produção cinematográfica, a nomes e obras, alguns e algumas de que muito gostamos, com alguns momentos que ficam na nossa memória e que oportunamente referiremos.

Além obviamente das excelentes e carismáticas intervenções musicais ao longo da noite, que pontuaram a cerimónia.

Parabéns à APC!

Mas lamenta-se a atitude da direcção da RTP, recusando-se a transmitir o evento, concluindo-se portanto que prefere as mediocridades que abundam na sua programação actual... Consequência óbvia das orientações a que está sujeita na actualidade a nossa Televisão Pública...




Prémio de Melhor Filme da Academia Portuguesa de Cinema foi para A última vez que vi Macau, de João Pedro Rodrigues e João Rui Guerra da Mata.

PUBLICO.PT


AIMER, BOIRE; CHANTER, de Alain Resnais

NOTAS CINÉFILAS (só sobre o que me interessa e gosto muito e que não posso deixar passar sem uma referência...)


AIMER, BOIRE, CHANTER (Amar, Beber, Cantar), derradeiro filme de ALAIN RESNAIS (Vannes, 3-Jun-1922 - Paris, 1-Mar-2014), um dos mestres do cinema contemporâneo e um dos realizadores cuja obra mais apreciamos. Neste último filme que nos ofereceu adapta mais uma vez o dramaturgo inglês, ALAIN AYCKBOURN (Londres, 12-Abr-1939), depois de FUMAR / NÃO FUMAR e CORAÇÕES, aliás duas obras-primas do Cinema.
É uma obra sofisticada, que quase podia parecer teatro filmado não fora a genialidade do cineasta. 

Não vou contar o argumento apenas dizer que se trata de uma comédia sobre as relações humanas, em todas as suas facetas, de meia dúzia de personagens, três casais, de quem um grande amigo fica inesperadamente com a morte a prazo, devido a cancro. O que poderia parecer um drama transforma-se numa comédia, onde tudo, ou quase, vem à luz do dia, ou da noite, incluindo as paixões e as aventuras sexuais, que se vê quase sempre com um sorriso que por vezes se transforma numa gargalhada contida. 

Resnais utiliza magnificamente os cenários de um famoso desenhador francês, de BD, e também actor (ver La Chambre Bleue, de Mathieu Amalric),  BLUTCH (Christian Hinkler) (Estrasburgo, 27-Dez-1967), misturando-os com as imagens reais das estradas e caminhos, em paisagens belas e fascinantes, do Yorkshire. 
Quantos às interpretações, de actores habituados a trabalhar com Resnais, são brilhantes.

O único comentário que posso acrescentar a esta brevíssima nota facebookiana é que constitui um grande prazer a visão desta pequena e maravilhosa obra de despedida do grande realizador.



Nota, à margem, sobre o que está em exibição: obviamente não perder a pequena série de filmes de SATYAJIT RAY, no NIMAS. Quanto ao Doclisboa, embora sem o carisma de outras edições, ainda tem algumas coisas a não perder, lá pelo meio... Depois digo.

Numa noite da SEMANA CULTURAL do Intervalo Grupo de Teatro

Foi mais uma noite magnifica de Cultura (e de afectos e emoções) a que se viveu ontem na 33ª Semana Cultural do Intervalo Grupo de Teatro.

A homenagem foi ao maior (na minha opinião e não só) dos nossos Fotógrafos, cuja dimensão é aliás universal, ao lado daqueles de que mais gosto - Doisneau, Ronis, Rodchenko, Cartier-Bresson, Salgado, Brandt, entre outros.

As intervenções sobre a vida e obra do homenageado estiveram a cargo do jornalista Fernando Dacosta e do também jornalista e escritor, Baptista-Bastos, referência maior das nossas letras e cidadania, e última vítima conhecida, há poucos dias, de uma censura que cresce assustadoramente, com pezinhos de veludo, nos jornais dominantes (despedimento do DN) e na sociedade em que vivemos.




Dele reafirmou Correia da Fonseca, o jornalista co-fundador do Intervalo Grupo de Teatro há 45 anos e que então se chamava 1º Acto, que Baptista-Bastos é o maior cronista português vivo. Concordo!

Ele e Gageiro são dois Homens que muito admiro, desde que conheci as respectivas obras, há muitos anos, ainda nos tempos de um passado, medíocre e tenebroso, contra o qual foram Resistentes.
Haveria muito a dizer sobre eles, o que obviamente não é compatível com o pequeno espaço de uma nota facebookiana. 
Sobre o homenageado principal, Eduardo Gageiro, Fotógrafo de Abril, que na madrugada início da libertação, avançou sem medo para as ruas, fotografando os alvores da Revolução que haveria de vir com o apoio popular. Depois foram as fotografias que mais ou menos todos conhecemos, entre as quais obras-primas que não nos cansamos de olhar.

A obra de Gageiro é um admirável retrato das gentes do seu país, por vezes as mais anónimas e sofredoras, mas nesse olhar há acima de tudo um universalismo admirável que o tornam tão grande. Impossível desfolhar os seus álbuns sem uma profunda emoção.

A terminar seria imperdoável não referir a parte musical da noite, em que participaram dois grandes nomes da Música Portuguesa da actualidade: um mestre da guitarra, Pedro Jóia e uma impressionante voz do fado, Ricardo Ribeiro. Foi magnífico!




sexta-feira, 31 de outubro de 2014

O SANTO (MAHAPURUSH), de Satyajit Ray

Mahapurush (O Santo), de 1965, pequena jóia da cinematografia de um mestre da Sétima Arte, Satyajit Ray, em exibição em Lisboa, no Cinema Nimas (depois irá para o Porto) no ciclo de cinema dedicado a este grande realizador, que abranje 6 obras em versões restauradas e decorrerá até 5 de Novembro (não percam!).

Esta é provavelmente das menos comhecidas. Pequeno no filme (65'), irónico, sobre a charlatanice que explora as crenças em existências divinas e sobrenaturais. 

Satyajit Ray não é contra as crenças que cada um possa ter mas contra as seitas, organizações e charlatões que as exploram em proveito próprio. O final da obra, tragico-comico e que não vou desvendar, não podia ser mais claro. Como sempre com uma direcção de actores brilhante.

Sobre a Índia, país natal de Satyajit Ray, e que está presente na maior parte da sua obra, não deixar de ler uma entrevista recente ao jornal Avante! de 25-9-2014, de Christopher Fonseca, secretário-geral do AITUC (Congresso dos Sindicatos de Toda a Índia) e membro do Conselho Nacional do PCI (Partido Comunista da Índia): 

"Nós somos uma nação que é altamente laica (...) o nosso povo é ardentemente laico. Anseia pela paz, pela liberdade, pela equidade."

(nota que publiquei no facebooK)


A GRANDE CIDADE (MAHANAGAR), de Satyajit Ray


Exibida no mini-ciclo sobre SATYAJIT RAY, no cinema NIMAS, 


É A GRANDE CIDADE (de 1963), uma indiscutível obra-prima da Sétima Arte, 

Aí também avulta a figura de uma mulher mas numa sociedade profundamente desigual, saída há pouco mais de uma década de um terrível estado colonial - a Índia dominada pelos ingleses e que não conseguiu sair do regime capitalista onde a exploração e as desigualdades continuaram enormes. 

É pois sobre a afirmação das mulheres num meio conservador e hostil de que fala a obra, ao contrário da anterior, do realizador soviético ZHARKHI, em que essa afirmação foi incentivada pela sociedade socialista com o partido comunista no poder. 



A actriz é MADHABI MUKHERJEE, outra grande figura dos ecrãs. 

(nota que publiquei no facebook)



CHLEN PRAVITEL'STVA (Membro do Governo)


Visto na Cinemateca, CHLEN PRAVITEL'STVA (MEMBRO DO GOVERNO) (de 1939), de ALEKSANDR ZARKHI e YOSSIF KHEIFITS. 


Pena que só com cerca de uma dezena de espectadores presentes (assim vai o estado da nossa cultura...) e com uma parca folha de sessão. Embora com um pequeno mas excelente texto escrito por um grande cineasta, Leonid Trauberg (facto, ausência da folha, que é para mim caso único... porquê?).

E no entanto trata-se de uma obra notável como cinema, que aborda a difícil construção do socialismo na União Soviética, que não esconde as dificuldades com que a nova sociedade se deparou mas que conseguiu vencer durante algumas décadas, atingindo desenvolvimentos sociais, económicos e científicos enormes.

Com interpretações admiráveis, em especial da grande actriz de cinema e teatro, VERA MARETSKAYA, na protagonista, uma camponesa pobre,semi-analfabeta, que pelas suas qualidades, pelo esforço na aquisição de conhecimentos para o trabalho colectivo, pelo desempenho da direcção de um kolkhoze, é convidada para o Partido Comunista e mais tarde eleita para o Soviete Supremo da URSS. Emocionante e admirável.



Vera Maretskaya (31-Jul-1906 - 17-Ago-1978) recebeu por este trabalho, em 1942, o Prémio Stáline. Que haveria de voltar a ganhar em 46, 48 e 51. Em 1949 foi nomeada Artista do Povo da URSS. 

Se voltar a ser exibido algures não percam (julgo que nunca o tinha sido no nosso país). As legendas em português não existem (ao contrário do que diz a folha da sessão) e foram substituídas por uma voz off, que diz os diálogos principais.

(nota cinéfila que publiquei no facebook)